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domingo, 21 de maio de 2017

A família na cultura da violência doméstica

Quando a maioria dos casos de violência de gênero são cometidos por pessoas próximas à mulher, torna-se imprescindível voltar os olhos para todos aqueles que se encontram neste cenário: das vítimas aos seus filhos e agregados.

Urge destacar o papel da família e da sociedade para a igualdade de gênero e enfrentamento da violência doméstica. No Brasil, é sabido que a famíliatambém é a dimensão de todo um contexto de preconceito, violação de direitos e morte. Praticamente metade dos feminicídios são cometidos por membros familiares. Somente em janeiro deste ano, trinta casos, no mínimo, foram noticiados em todo o país. São os de maior repercussão que chamam a atenção pelas suas peculiaridades como a chacina de Campinas, onde Sidnei Ramos matou a ex-esposa, o filho de oito anos e mais dez pessoas no primeiro dia de 2017.

Este é apenas um dos prováveis 210 feminicídios ocorridos no país somente nos primeiros trinta dias do ano se a média estatística do Mapa da Violência – Homicídio de Mulheres no Brasil, de sete mortes por dia, for considerada. Agora, é preciso dizer que o assassinato de mulheres não as atinge isoladamente no ambiente familiar porque com frequência crianças e adolescentes testemunham as violências sofridas por suas mães. No mesmo 1º de janeiro, Jeferson Caetano ateou fogo, com galão de gasolina, na companheira durante o réveillon de Contagem (MG), crime testemunhado pelo filho de nove anos. Infelizmente este grupo de meninas e meninos, se não atingidos diretamente, também são alvo indireto de uma cena que ocorre regularmente.

Da mesma maneira é preciso entender como a legislação dispõe das relações entre igualdade de gênero, enfrentamento da violência doméstica e ambiente familiar. A Lei Maria da Penha, n. 11.340/06, dispõe que cabe à família, à sociedade e ao poder público criar condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos das mulheres. Direitos à vida, segurança, saúde, alimentação, educação, cultura, moradia, acesso à justiça, esporte, lazer, trabalho, cidadania, liberdade, dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. A lei guarda coerência ao prever assim a ideia da corresponsabilidade, na medida em que a violência de gênero tem em sua raiz uma construção social, histórica e culturalmente arraigados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) escolhe o uso do “modelo ecológico” para retratar fatores de risco e de proteção à mulher em situação deviolência. Este modelo apresenta quatro níveis de influência de fatores de risco: o individual, referente a fatores biológicos e histórico-pessoal; o relacional, que diz respeito ao risco resultante de relacionamento com pares, parceiros íntimos e membros familiares; o comunitário, nos quais estão contidas relações sociais como as escolas, os locais de trabalho e a vizinhança; e o social, que inclui fatores mais amplos que influenciam a violênciasexual, a desigualdade de gênero, sistemas de crenças religiosas ou culturais, normas sociais e políticas econômicas ou sociais que sustentam lacunas e tensões entre grupos de pessoas. 

Se há fatores de risco contidos em cada um destes níveis, é natural e correto que o enfrentamento da violência contra a mulher deva ter por atores aqueles que nele se encontram. Não é à toa que a Lei 11.340/06, ao definir as diretrizes das políticas públicas voltadas a combater e prevenir aviolência contra a mulher (artigo 8º), aponta a necessidade da promoção e realização de campanhas educativas voltadas ao público escolar e à sociedade em geral; a difusão da lei e dos instrumentos de proteção aos direitos humanos das mulheres; a promoção de programas educacionais que disseminem valores éticos de irrestrito respeito à dignidade da pessoa com perspectiva de gênero e de raça ou etnia; e, dentre outros, a celebração de convênios, protocolos, ajustes, termos ou outros instrumentos de promoção de parceria entre órgãos governamentais ou entre estes e entidades não governamentais, tendo por objetivo a implementação de programas de erradicação da violência doméstica e familiar contra a mulher.

Como dito, a violência contra a mulher atinge não só aqueles que sofrem suas consequências diretas, mas também àqueles que a testemunham, normalmente as crianças e adolescentes que são filhos do agressor e da vítima. Há uma frase muito comum e que reflete um outro viés em relação ao olhar que deve ser dado à violência doméstica e familiar contra a mulher: “Ele é mau marido, mas é bom pai”. Será? Uma pergunta que deve ser feita aos familiares de Juliana Kolassa, morta a tiros pelo ex-marido na cidade gaúcha de Carlos Gomes (RS) – ela tinha uma filha de oito anos. Ou àqueles que cuidarão do bebê de onze meses de Valdeane Soares, assassinada a pauladas pelo marido em São Matheus (ES). Uma criança que só conhecerá a mãe pela memória do irmão, hoje com dez anos.

Segundo o Balanço do Ligue 180 – 2014, 64,5% da violência ocorre na presença dos filhos; destes, 17,73% sofreram agressões. São também as crianças e adolescentes vítimas diretas ou reflexas da violência doméstica. Os efeitos a este grupo podem ser mais gravosos do que se imagina: são pessoas que se encontram em desenvolvimento, é comum que sofram a chamada “revitimização” porque instadas a relatar as situações de violência; são muitas vezes as “vítimas permanentes” porque continuam convivendo com o agressor mesmo que a relação entre ele e vítima termine; são também alvo da chamada “alienação parental”, em que, intitulando-se as “verdadeiras vítimas”,  agressores culpabilizam as mulheres por terem acionado a polícia; por fim, são elas que se encontram em uma posição que facilita a repetição daquele padrão de relacionamento, tornando aviolência algo natural. 

A Lei 8.069/90 preconiza que a criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, assegurando-se-lhes todas as oportunidades e facilidades a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Também, que é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação de seus direitos.

É de irrefutável importância, pois, que este grupo não seja esquecido e não tenha seus “direitos roubados”. É necessário enxergar a importância de cuidar de toda a dinâmica da violência doméstica e familiar contra a mulher, inclusive desta cadeia sucessória, evitando sua transgeracionalidade, o comprometimento do desenvolvimento destas crianças e adolescentes, e a naturalização da cultura da violência. 

A igualdade de gênero, a preservação e garantia dos direitos da mulher é um bem que se faz à crianças e aos adolescentes. Afinal, o direito damulher à vida com dignidade não é uma questão ideológica, é uma questão de direitos humanos.

As mudanças legislativas e a violência infanto-juvenil

15/05/2017 por Tiago de Toledo Rodrigues
Inquestionavelmente, os graus de insegurança, violência e impunidade, no Brasil, são elevados. Também nos parece indiscutível que os episódios de desrespeito aos direitos humanos fundamentais envolvendo entidades de atendimento de adolescentes, inadmissíveis em uma sociedade que se ambiciona civilizada, são frequentes.

É igualmente certo que os mecanismos de prevenção e punição da violência, de preservação da paz, e de garantia do respeito aos direitos dos menores de dezoito anos, tal como empregados até o momento, foram incapazes de propiciar condições de harmonia e segurança que afiancem uma saudável vida coletiva, e um processo socioeducativo qualificado e competente.

Contanto os diagnósticos sejam indubitáveis, a redução da maioridade penal ou qualquer alteração normativa pontual ou assistemática, não solucionará ou amenizará os graves problemas existentes, e tampouco produzirá os efeitos necessários. Apenas uma mudança nas diversas leis que abordam, imediata ou mediatamente, o sistema socioeducativo, com a readequação do regulamento jurídico respectivo, fornecerá as condições necessárias para alcançar os resultados imprescindíveis, com o fortalecimento do princípio da proteção integral.

O advento da Lei nº 8.069/90 - Estatuto da Criança e do Adolescente, ao estabelecer a doutrina da proteção integral, operou verdadeira revolução na ordem jurídica nacional, reconhecendo que crianças e adolescentes são sujeitos de direitos fundamentais a serem assegurados com absoluta prioridade.

Parcela deste avanço consistiu na instituição de um sistema de responsabilização diferenciado para os adolescentes que incorrem na prática de atos infracionais, sujeitando-os às medidas socioeducativas e protetivas.

E passados mais de 25 anos da sua publicação, contanto o Estatuto seja constantemente desrespeitado, é possível auferir, com a necessária segurança, os efeitos daquilo implementado pelos órgãos e Instituições envolvidos.

Neste período, inquestionavelmente houve um recrudescimento da violência, sobretudo nos grandes centros urbanos onde se constata um crescimento exponencial das apreensões por atos infracionais, cada vez mais graves. Dados da Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente e do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) registram um aumento de mais de 580%[1], entre os anos de 1996 e 2014, na população de adolescentes em regime de privação de liberdade – medidas que pressupõe a prática das mais graves infrações.

Foi este o panorama que fomentou a apresentação de diversos anteprojetos de lei que pretendem alterar a legislação atual. Em sua grande maioria, as iniciativas, de cunho majoritariamente repressivo, esperam atingir àqueles que incorrem em atos graves, e argumentam, para tanto, a necessidade de assegurar uma resposta socioeducativa adequada à seriedade daquilo praticado, mas não contemplam outros aspectos do sistema de proteção e defesa dos direitos das crianças e adolescentes, cuja adaptação é imprescindível para a eficiência do conjunto normativo e alcance dos resultados necessários.

Sabidamente, muitos dos atos infracionais são fruto da cooptação feita por imputáveis, que aliciam menores, induzindo-os, instigando-os e auxiliando-os a infracionar. Não é raro que estes recrutamentos iniciem adolescentes no ambiente infracional que, posteriormente, terão extrema dificuldade de exonerar.

Ao mesmo tempo, é possível constatar que os regramentos estabelecidos no ECA e no SINASE são freqüentemente desrespeitados ou mal interpretados, o que certamente influencia o aumento do número de atos praticados. Infortunadamente, o cumprimento integral dos dispositivos legais é extraordinário, sobretudo nas entidades de atendimento, caracterizadas por freqüente superlotação, notícias de agressões e tumultos, dentre outras deficiências graves. Não por outro motivo, os índices nacionais de reincidência são elevados e atingiram 43,3% em 2012[2].

Também é forçoso reconhecer que atualmente, em muitos casos, as medidas socioeducativas têm um curto prazo de duração – fruto da equivocada interpretação da lei, sua má aplicação ou influência da superlotação – e, nestas circunstâncias, não cumpre a finalidade a que se destina – reinserir o adolescente no convívio familiar e comunitário de maneira saudável. Tais distorções não foram totalmente solucionadas com a edição da Lei nº 12.594/2012, que instituiu o SINASE e disciplina a execução das respectivas medidas.

A legislação vigente, a despeito da vanguardia e evolução, pode ser reexaminada, sobretudo naquilo atinente à proteção da cooptação feita por maiores imputáveis; ao cumprimento do sistema vigente pelas entidades de atendimento; e à responsabilização de autores de atos graves. Com isso, pode-se impedir o aliciamento de adolescentes, assegurar o respeito às regras correntes (com responsabilização dos dirigentes de entidades), e ampliar as condições de reeducação, por período suficiente para o planejamento e execução de um trabalho socioeducativo qualificado e eficaz.

As mudanças necessárias, e que efetivamente robustecerão a proteção integral, exigem alterações em diversas normas jurídicas que atingem, direta ou indiretamente, o sistema socioeducativo e a prática de atos infracionais. Qualquer providência pontual, isolada ou assistemática não será capaz de emendar os problemas existentes.

A simples ampliação do prazo máximo de internação, contemplada em muitas das propostas, não solucionará as dificuldades identificadas, tampouco estenderá o tempo que os adolescentes permanecem em reeducação. Conforme estudo do Ministério Público do Estado de São Paulo, 87,8% dos adolescentes da Capital permanecem internados menos de um ano[3]. Sem a adequação de outros dispositivos, não será possível assegurar a proporcionalidade entre a gravidade do fato e a medida socioeducativa imposta, que continuará perdurando pouco tempo.

Da mesma maneira, a mudança isolada do regramento de responsabilização de jovens e adolescentes, sem o recrudescimento da reprimenda daqueles que os aliciam ou das entidades de atendimento que descumprem as regras vigentes, não produzirá efeitos substanciais imprescindíveis.

As circunstâncias exigem austeros investimentos de três grandes ordens: a. A proteção contra a cooptação feita por imputáveis e prevenção do aliciamento: a partir do recrudescimento da reprimenda aplicada àqueles que o fizerem;  b. Fomentar o respeito ao sistema vigente, repetidamente descumprido pelas entidades de atendimento, com responsabilização dos dirigentes: a partir da ampliação das obrigações respectivas e do rol de infrações administrativas; c. Implementar a responsabilização dos autores de atos infracionais graves: para aprimorar as condições de reeducação dos adolescentes e jovens, com tempo de ressocialização suficiente para o planejamento e execução de um trabalho socioeducativo qualificado e eficaz.

Infortunadamente, daqueles atualmente em curso no Congresso Nacional, apenas o projeto de lei nº 3.771/2015[4](Câmara dos Deputados), que cria o Sistema de Proteção às Crianças e Adolescentes em Conflito com a Lei, contempla estas alterações.

[1] Consoante sistematização do número de adolescentes em privação de liberdade, elaborada pela Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente em 2006 (http://www.sdh.gov.br/assuntos/criancas-e-adolescentes/pdf/SinaseLevantamento2009.pdf), no ano de 1996 o Brasil registrava 4.245 adolescentes internados ou em semiliberdade. De acordo com a nota técnica do IPEA no 5, de junho de 2015, no ano de 2013 existia um total de 23,1 mil adolescentes provados de liberdade (http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=25621&Itemid=9). A Secretaria nacional de Direitos Humanos, em levantamento de 2014, indica que 24.628 adolescentes estavam em regime de internação ou semiliberdade naquele ano (http://www.sdh.gov.br/noticias/pdf/levantamento-sinase-2014) - sítios consultados em março de 2017.
[4] Elaborado em colaboração com o MPD.

Brevidades de Dostoiévski

por Jotabê Medeiros — publicado 17/05/2017
Contos Reunidos mostra a maestria do escritor de Crime e Castigo em narrativas curtas, um verdadeiro laboratório de obras-primas
AFP
Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski (1821-1881) vocaliza os humilhados e ofendidos de qualquer tempo e lugar
Quando tinha 25 anos, Dostoiévski publicou “Como É Perigoso Entregar-Se a Sonhos de Vaidade”. Esse texto, com tradução de Irineu Franco Perpetuo, é a vedete do volume lançado agora pela Editora 34, Contos Reunidos, que engloba o conjunto dos 28 contos publicados pelo autor. O exercício consiste em notar que o arcabouço da obra já está representado nessa primeira história breve: o questionamento das forças de ascensão e submissão social, o profundo exame da consciência moral do indivíduo, o sarcasmo, o retrato da decadência da burguesia russa, o ideal de liberdade filosófico.
Dostoiévski invariavelmente partia de uma notícia cotidiana colhida em jornais para construir sua teia. Da superfície estavam as consciências, que ele perscrutava com habilidade de médico-legista. “O sonho é extravagante e de uma crueldade estranha”, escreve. Em “Como É Perigoso Entregar-Se a Sonhos de Vaidade”, a ação de um ladrão durante o sono de um bem-sucedido funcionário público desencadeia a ruína desse último não pela perda de bens, mas pela desmontagem psicológica. Há nessa injunção a sentença favorita do autor: todas as máscaras de prestígio social se assentam sobre castelos de areia. Essa conclusão acompanha os contos “A Mulher de Outro e o Marido Debaixo da Cama” (1848) e “O Ladrão Honrado” (1860).
Os contos, como assinala Fátima Bianchi no ensaio que precede a leitura, mostram como Dostoiévski capturou as mudanças humanas, de comportamento, numa Rússia que atravessava momento crítico, com a derrocada do estilo de vida burguês, a desagregação familiar, a pauperização do povo e o caos administrativo. 
Há também a questão da política. Dostoiévski posta-se como um observador privilegiado, e invisível, da oposição entre patrão e empregado. Ambos se subestimam, e a construção das narrativas implica um exame cru e imparcial das vicissitudes, sem indulgência para com o senhor nem para com o serviçal. O humanismo de Dostoiévski sempre o coloca do lado dos explorados, mesmo do gatuno amoral que foge pelas ruas de Moscou. E há um senso de humor e picardia que não tem intenção de envelhecer.
O estilo mostra como o escritor fazia dos contos o laboratório de inseminação dos romances, alguns dos maiores da história da literatura, como Crime e Castigo (1866) e Os irmãos Karamázov (1880). O cantor Belchior cita o mestre em Onde Jaz Meu Coração, nos “humilhados e ofendidos” do Nordeste. O retrato de uma sociedade pode encaixar-se em outra – o fundamento é sempre o mesmo, o homem.

Um Homem de Família - Trailer legendado [HD]



Publicado em 11 de abr de 2017


Um implacável headhunter corporativo de Chicago está em plena guerra para conseguir assumir o controle das contratações de equipe da empresa. Em meio a rivalidade no trabalho, uma tragédia familiar faz com que sua vida pessoal e profissional entrem em conflito.

Direção: Mark Williams 
Elenco: Gerard Butler, Willem Dafoe, Alfred Molina, Alison Brie
Gênero: Comédia / Drama
País: Canadá

Depois de ‘Leviatã’, cineasta russo volta a Cannes com o também cortante ‘Loveless’

Quem nunca viu um longa do diretor russo Andrey Zvyagintsev e o observa, simpático, pacato e até mesmo sorridente, pode até pensar que seus filmes são da seara dos que “fazem a gente sair mais leve do cinema”. Mais longe disso, impossível.
Se o cineasta já nos tinha presenteado com um soco no estômago chamado Leviatã em 2015 (que merecidamente concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016 e integrou a mostra competitiva de Cannes em 2014), desta vez ele chega à competição de Cannes 2017 com um direto no fígado. Nelyubov (em inglês, Loveless, o que poderia ser em português, Sem Amor ou Falta de Amor) tem um título tão límpido quanto a luz construída pelo diretor de fotografia Mikhail Krichman.
O longa abre com uma imagem bucólica, e melancólica, de uma árvore. A princípio enigmática, mas que revela seu propósito logo em seguida. E a mesma imagem fecha a narrativa como um círculo que se fecha em torno das vaidades, ou vícios, humanos e contemporâneos. E mais uma vez no cinema de Zvyagintsev a natureza é personagem presente que acompanha os sentimentos, e desesperos, dos personagens. “A paisagem que vocês veem no começo do filme estava planejada no roteiro. Andrey me pediu para filmar várias paisagens”, explicou Krichman em conversa com os jornalistas há pouco. “O filme foi rodado no início de outubro e a natureza muda muito e é mágico. O Andrey queria filmar esta paisagem no início e no fim do filme.”
De fato a estratégia narrativa do diretor funciona perfeitamente. Ainda que a maior paisagem de sua história seja o rosto dos atores, em especial o casal Zhenya (Maryana Spivak) e Alexey Rozin (Boris), que passam da total indiferença em relação a seu filho Alyosha (Matvey Novikov) ao desespero completo quando o garoto desaparece sem deixar vestígios.
Apesar do filme se passar em grande parte na busca de Zhenya e Boris pelo filho, é a construção da trama desta tragédia que revela a engenhosidade de Zvyagintsev. Impossível decidir se, em seu cinema, o homem é o lobo do homem ou se é o olhar analítico e maquiavélico do cineasta que joga luz sobre as partes sombrias da natureza humana. Como bem observou o produtor Alexander Rodnyansky, Zvyagintsev observa as pessoas de forma muito particular.
E a forma como ele observa a mãe ausente e o pai mais ausente ainda da vida do filho pré-adolescente é exasperante. Zhenya e Boris vão se divorciar e para isso precisam vender o apartamento em que moram com o garoto. Ela “não quer, como sempre, consertar a bagunça” que o marido faz e cuidar sozinha do filho depois da separação. Ele quer apenas se ver livre da mulher que hoje detesta para poder casar novamente com uma namorada mais jovem que está grávida de seu segundo filho. Ter um bom casamento é condição crucial para manter o emprego, em uma empresa em que os valores da família e da religião são pré-requisitos do currículo.
A solução para ‘se livrar’ do peso que é Alyosha não passa por fazer com que o menino desapareça. No entanto, ironicamente e bem a serviço da engrenagem do roteiro, o menino foge. É aí que o egoísmo, o hedonismo, a desconexão dos pais com a vida do filho tomam dimensões trágicas. Assim como em Leviatã, não há saída e muito menos redenção. Aprendizado e transformação ao final da jornada? Não no cinema rigoroso como o inverno que toma conta da cidade em que vivem os personagens.
O mergulho no vazio do casal é tamanho que ao público não resta muito a não ser também observar com interessa quase de quem faz uma autópsia cada ferida deixada por esta história. Maryana, que vive a mãe Zhenya, observa bem que a tragédia não se abate sobre eles como um golpe do destino, mas vai se desenhando em cada cena desde a primeira, desde a árvore. E é esta a maior qualidade de Loveless, a forma como o cineasta constroi e monta seu quadro sobre o vazio humano da Rússia (e do mundo) atual.
No entanto, ao lado da exasperação e do abismo em que mergulham os personagens, um quê de humanidade vem junto. “Você diz que a criança não é amada. O fato dela dizer o que diz não significa que a mãe não ama a criança. A gente pode dizer coisas que não sente necessariamente. Sentimentos são muito complexos”, comentou a atriz, que faz sua estreia em Cannes, durante a entrevista coletiva da manhã de quinta.
Procede. Os sentimentos que pareciam tão sedimentados em Boris e Zhenya ganham camadas ao longo do filme, ainda que seus rostos não escancarem, na maior parte do tempo, o que cada um de fato sente para além das trocas de ofensas.

É sem dúvida um filme duro, cortante e bem construído. Afirmar que é candidato a Palma é um tanto exagerado, porém. Loveless representa bem o cinema russo atual. A propósito, o longa foi totalmente feito com verba de coprodução internacional, pois o ministério da cultura russo havia odiado o ‘retrato’ que Zvyagintsev fez da Rússia em Leviatã). “A gente queria ser o mais livre e independente possível depois deste episódio de Leviata, em que o ministério declarou que não aprovou o filme. E há vários cineastas jovens produzindo novos filmes independentemente. Que continue assim e que sejam bons filmes”, declarou o produtor Rodnyansky.
Se de depender de Loveless, o cineasta vai continuar cada vez mais independente.

Carta Capital

“Há espaço para todos”, diz Tilda Swinton sobre ‘Okja’, filme da Netflix em Cannes

Depois da polêmica iniciada com a declaração de Pedro Almodóvar, presidente do júri do Festival de Cannes este ano, que comentou que, pelo menos pessoalmente, prefere filmes na tela grande e que não se vê dando uma Palma de Ouro a um filme que não se destina a ser visto nos cinemas (um “paradoxo”), foi a vez do primeiro destes filmes (os para a tela pequena) serem exibidos na mostra competitiva do festival.
Okja, produção da Netflix que está em competição no evento, ao lado de The Meyerowitz Stories, teve sessão na manha de sexta para a imprensa (a gala ocorre na noite do mesmo dia) e agradou a crítica. Pontuada por vaias a todo momento em que a logomarca da Netflix apareceu nos créditos iniciais e problemas técnicos de adequação do filme ao formato da tela, o que forçou a equipe do festival a parar o filme, fazer os ajustes e recomeçar a exibição, a sessão terminou bem e sob aplausos.
Em conversa com os jornalistas após a sessão, era óbvio que as questões sobre o problema na projeção e sobre Almodóvar viriam. À primeira, o diretor sul-coreano Bong Joon Ho (de Memórias de um Assassino e Mother – A Busca pela Verdade) respondeu apenas que problemas técnicos acontecem e que não acha que se tratou de alguma sabotagem. “Na verdade fico feliz que as pessoas viram o começo duas vezes, pois tem muita informação.” Já a segunda, ele rebateu a polêmica à altura das críticas: “Sou um superfã do Almodóvar. Ele pode dizer o que quiser. Estou feliz. Apenas feliz de ver este filme aqui em Cannes hoje à noite.”
A inglesa Tilda Swinton, que faz o papel de uma executiva sem escrúpulos no longa, também pontuou: “É importante que o presidente do júri faça suas declarações. Faz parte do jogo. E é verdade que temos uma oportunidade incrível e isso é parte da graça de mostrar um filme aqui em Cannes, para gente do mundo. Mas se você quer saber o que eu realmente acho, o importante é que tem espaço para todos.”
O filme conta a saga da garota Mija (Na Seo Hyun) que cresce em companhia da criatura Okja, fruto de uma experiência científica bancada pela corporação Mirando (da qual Lucy, vivida por Tilda Swinton, é herdeira) para prover ao mundo um animal imenso, uma forma de porco gigante que vai servir de alimento para os 7 bilhões de seres humanos e mais de 800 milhões que passam fome no planeta. 26 animais são distribuídos a fazendeiros de todo o mundo e, em dez anos, o ‘melhor’ Super Porco vai ser escolhido pelo cientista e apresentador de TV Dr. Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal).
Uma década depois Okja é eleito o melhor e seu destino é virar salsicha em Nova York, isso depois de uma grande ação de marketing para promover mais ainda as inovações da Mirando. Lucy, Dr. Wilcox e cia só não contavam que o animal se tornaria o melhor amigo da pequena Mija e que ela, com a ajuda de um grupo de ativismo, o Animal Liberation Front, que sequestra Okja e consegue imagens dos maus tratos e experimentos cruéis que a empresa faz em seus com os animais, que na verdade senão geneticamente “construídos” em laboratórios.
Para os que adoram um bom churrasco, Okja tem o mérito de levantar questões sobre a forma como a sociedade contemporânea trata animais como apenas comida e propriedade. Para os já adeptos do consumo mais responsável de carne e para os vegetarianos, o longa é um bom aliado. Mas engana-se quem pensa que o filme de Joon Ho seja um libelo contra os carnívoros. Apesar do longa ter momentos sombrios e dramáticos, é também divertido e não tira conclusões definitivas sobre o consumo de carne.
“A gente vive em uma era capitalista, que nos deixa feliz, mas o lado escuro é que há muito sofrimento. É difícil para a gente lidar com isso, mas precisamos encarar, ainda que seja nesta história que é a de uma garotinha fazendo, de uma forma ainda que dura, mas cheia de aventura, a passagem para a vida adulta”, comentou o diretor. Já An Seo, a Mija, comentou: “Antes do filme eu adorava comer carne, especialmente carne de porco. Depois do filme, eu entendi o que os animais passam, sobre o sofrimento. Não vou comer muita carne como antes.”
Gyllenhaal ressaltou o trabalho de An Seo e a relação entre o feminino e a natureza. “Eu tenho relações pessoais com os animais. Para mim, tem a ver com a nossa relação com a natureza. Queria falar como a natureza é simbiótica com as mulheres. A jornada é vivida por uma garota. As duas grandes ideias que me desafiaram nos últimos anos foram mulheres e natureza”, analisou o ator. “E este é um tema muito interessante para explorar. A relação entre Mija e o animal é muito inspiradora. Quando a gente está filmando não vê as tantas camadas até ver o fim. Então, a gente vendo o filme pronto, vê todas as camadas do filme. Ela fez um trabalho incrível.”
Novamente, a Netflix
Joon Ho foi novamente questionado sobre a questão do on demand e ouviu afirmações de que muitos espectadores não tem a chance de ver um filme no cinema, por conta da distribuição em muitos países. Tilda então respondeu e provocou os que vêem o on demand como uma ameaça grande ao cinema. “Muitos filmes que passam em Cannes não são vistos pelo grande público nos cinemas também. São lindos e exóticos filmes que as pessoas nunca verão no cinema. É tudo um processo evolutivo e a Netflix deu a Joon a possibilidade de filmar esta visão completamente livre da realidade.”
A propósito, Joon Ho também comentou que teve total liberdade de criação e que a Netflix o deixou confortável para contar sua história da melhor forma. Com exceção da escolha pelo formato 4K digital (inicialmente ele queria rodar em película), a empresa não interferiu nas escolhas do cineasta. “Amei trabalhar com a Netflix. Eles me deram muito apoio. O orçamento foi muito bom e eu tive muita liberdade, o que é raro. Eles nunca interferiram, do início ao fim. Para ser franco, eles me deram total liberdade. Não me senti pressionado em nenhum momento”, declarou o diretor.
Em uma análise rápida, Okja não deve levar a Palma de Ouro, mas não por não ter sido “pensado” para a tela grande. É um filme despretensioso, bem realizado, que entretém e toca os dispostos a ver uma história que transita entre sequências mais poéticas e outras mais ágeis, além de outras que questionam o mundo contemporâneo. Seja na tela grande ou na TV, vai seduzir as grandes plateias.
“Timing é muito importante neste filme. Acho que não há melhor hora para este longa ser lançado, especialmente neste momento da história. Não falo só de tema, mas também sobre o que dizer. Por isso o timing é perfeito. O importante é quantas pessoas o filme pode chegar”, conclui Gyllenhaal, que não por acaso faz um veterinário dividido, mas não muito, entre a fama e a engrenagem capitalista e a paixão pelos animais.

Carta Capital

Em Cannes, ‘A Praça’ das virtudes e vaidades humanas

O hall do Festival de Cannes dos filmes que exploram o lado mais insólito da realidade contemporânea para tratar de questões urgentes e profundas acaba de ganhar mais um título: The Square, ou A Praça. Dirigido por Ruben Östlund (do ótimo Força Maior), o longa parte de uma premissa quase filosófica sobre uma instalação artística: “A Praça é um santuário de confiança e cuidado. Nela, todos nós somos iguais em direitos e deveres.”
A frase pertence a uma suposta argentina que vai expor sua obra no Museu E-Royal de Estocolmo, uma respeitada entidade destinada à arte contemporânea. Que dirige o local é o curador Christian (dinamarquês Clars Bang, da série The Bridge). Bonito, poderoso, engajado em boas causa, ele quer despertar no público a vontade de falar de temas como o altruísmo, algo que ao menos deveria ser de preocupação de todos.
No entanto, como ele bem diz à jornalista Anne (Elisabeth Moss, de Mad Men), o maior desafio como diretor da instituição é o financeiro. Para ele, o museu como instituição pública deve brigar de igual para igual com grandes milionários que colecionam as mais importantes obras de arte. Para isso, precisa de dinheiro. Para ter dinheiro, precisa de público, ser relevante, ter atenção e receber doações dos ricos e poderosos.
Portanto, Christian precisa atrair a mídia para A Praça e, para isso, precisa de uma campanha de mídia que vai viralizar na internet. Então dois jovens “do tipo que nasceram com um tablet na mão” bolam um vídeo mais do que controverso. A equipe de Christian hesita, mas ele, entretido com um plano desastroso para recuperar sua carteira e seu celular roubados, não assiste o vídeo antes de aprová-lo.
A partir daí, uma comédia de erros, ou uma autêntica tragicomédia se desencadeia. E o sempre “equilibrado” Chris começa a ter suas contradições e defeitos postos duramente, e comicamente, postos à prova em uma espiral que lembra o teatro do absurdo.

Se em Força Maior o cineasta já havia acionado os botões do surreal e do constrangedor para provocar seu público, em A Praça Östlund aciona o botão nuclear do esdrúxulo e do patético em várias cenas. Tudo para causar uma reflexão sobre o quão cínicos, hipócritas e egoístas todos nós, seres contemporâneos, estamos.
Quando questionado, na manhã do sábado em conversa com a imprensa, se A Praça é um filme político, o diretor negou, mas não muito. “A mensagem da Praça é muito aberta. A gente pode encontrá-la na história da humanidade, na política. Mas mais importante era que cada um pensasse a política de cada dia”, comentou ele.
De fato. É nos pequenos-grandes atos cotidianos que os caráteres de revelam. Christian é um cara de grandes e humanistas ideias, mas que age muitas vezes com covardia, cinismo, egoísmo. É, como todos, contraditório e demasiadamente humano. Causa raiva, pena e até risos e empatia a trajetória de Chris. É um retrato patético, ainda que exagerado, do modo de vida contemporâneo.
O longa dialoga, mas com humor, com o subtexto de outro filme em competição em Cannes 2017, o russo Loveless. “Esta história tem algo de todos nós. Era isso que eu queria discutir, mais do que fazer uma crítica que toma partido de um lado ou que seja meramente política. Minha ideia era : ‘saia deste jogo’. A gente se cansa deste debate político quando fica só entre Direita X Esquerda. Isso está muito ligado ao lado do poder de se levar e pensar as questões além”, analisou o diretor, em declaração que prova que a trama poderia se passar de fato em qualquer metrópole do mundo.
Para chegar neste “pensar alem”, Östlund coloca a seus personagens e a nós em situações constrangedoras, que duram até a exaustão e são pensadas exatamente, e cerebralmente, para incomodar, tirar o espectador da zona de conforto. Mas, diferente de Força Maior, é menos tocante. A redenção não chega, a jornada do herói torto não se completa de forma óbvia. No entanto, como na vida, Chris tem de lidar com o fracasso, a culpa, as frustrações. Se ele aprende algo? Aí o diretor deixa a gosto do espectador.
“Mesmo que fale de algo maior, acho o filme muito político e lança um olhar contundente sobre a forma de viver ocidental. Sobre a hipocrisia, sobre como fechamos nossos olhos para muitas coisas. A gente não fez o filme para ter uma declaração necessariamente política, mas a política permeia cada um de nossos atos”, observou o ator Clars Bang. Há que se analisar com mais tempo o tabuleiro armado por Östlund, mas que seu jogo de cinema é engenhoso, ainda que imperfeito, isso é.

Carta Capital

Conceição Evaristo: “Nossa fala estilhaça a máscara do silêncio”

por Djamila Ribeiro — publicado 13/05/2017
Homenageada pela Ocupação no Itaú Cultural, vencedora do Jabuti fala sobre a resistências das escritoras negras e da importância da quebra do silêncio
Richner Allan/Divulgação
A escritora Conceição Evaristo
'O imaginário brasileiro, pelo racismo, não concebe reconhecer que as mulheres negras são intelectuais'
Conceição Evaristo, escritora mineira, vencedora do Jabuti em 2004 com o livro Olhos d’água está sendo homenageada com a “Ocupação Conceição Evaristo”, no Itaú Cultural.
A mostra reúne textos, áudios, vídeos e fotos que contam a trajetória da escritora. Os objetos permanecerão no espaço até o dia 18 de junho. Na entrevista, Conceição fala sobre a dificuldade encontrada pelas escritoras negras para publicar suas obras, a resistência e a importância da quebra do silêncio.

CartaCapital: Como você descobriu  que queria ser escritora?
Conceição Evaristo: Na escola. Na quarta série primária eu ganhei um prêmio de literatura com uma redação cujo tema era “por que eu me orgulho de ser brasileira?”. Eu sempre escrevi, falava sobre minha festa de aniversário, a fazenda onde passei as minhas férias. E eu fico pensando que ficcionalizar aquela época me permitiu sonhar. E, entre escrever e publicar, é aí que marca o tempo, a diferença. Eu só publiquei a primeira vez 1990, nos “Cadernos Negros”, organizado pela Quilombhoje [coletivo cultural e editora]. Meu livro ficou guardado por 20 anos e minha publicação individual foi só em 2003.

Conceição Evaristo em sua primeira comunhão
Infância: Conceição Evaristo durante sua primeira comunhão, em 1954
CC: A que você atribui essa demora em publicar?
CE: Tudo para as mulheres negras chega de uma forma mais tardia, no sentido de alcançar tudo o que nos é de direito. É difícil para nós chegar nesses lugares. E eu fiquei pensando esses dias, quando foi que Clementina de Jesus aparece? Com mais de 60 anos. E a Jovelina Pérola Negra? A própria Ivone de Lara, quando ela vai ter mais visibilidade na mídia? E olha que estamos falando de produtos culturais que, entre aspas, "são mais democráticos".  E a literatura, que é uma área mais do homem branco, apesar do primeiro romance ser de Maria Firmina dos Reis, uma mulher negra, as mulheres negras vão chegar muito mais tarde.

Essa longa espera tem muito a ver com esse imaginário que se faz da mulher negra, que a mulher negra samba muito bem, dança, canta, cozinha, faz o sexo gostoso, cuida do corpo do outro, da casa da madame, dos filhos da madame. Mas reconhecer que as mulheres negras são intelectuais em vários campos do pensamento, produzem artes em várias modalidades, o imaginário brasileiro pelo racismo não concebe. Para uma mulher negra ser escritora, é preciso fazer muito carnaval primeiro.

CC: Como foi pra você esse processo de publicar? Como lidou com isso?
CE: Eu tenho dito, Djamila, que as feministas brancas usam uma máxima quando elas falam que escrever é um ato político. Para nós mulheres negras, escrever e publicar é um ato político. Por causa da minha primeira publicação, Ponciá Vivencio, fiquei um ano no vermelho para pagar a editora Mazza, em 2003. Eu paguei a primeira e segunda edição e, anos depois, esse livro foi para o vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais. A partir daí a editora assumiu sozinha. Becos da Memória, outro livro meu, a editora assumiu sozinha. Com outros livros, eu dividi os custos. Então esse processo de publicação infelizmente ainda hoje é necessário. Eu tenho dito para as mulheres negras que a gente precisa encontrar formas coletivas de publicar. Publicar é um ato político para nós e precisamos jogar isso na cara de quem está aí para confrontar.

CC: Não devemos desistir?
CE: Precisamos mostrar as nossas narrativas, temos que disputar. E eu preciso falar que os meus primeiros leitores foram pessoas do movimento social negro. Cada leitor e cada leitora levava pra sala de aula, pra academia. Então hoje, se eu chego nesse espaço da Ocupação [Itaú], é um espaço que foi construído a partir da leitura dos meus pares. Eu cheguei onde cheguei hoje por conta desse nosso trabalho de formiguinha que a gente sabe fazer muito bem.

Aquela imagem de escrava Anastácia (aponta pra ela), eu tenho dito muito que a gente sabe falar pelos orifícios da máscara e às vezes a gente fala com tanta potência que a máscara é estilhaçada. E eu acho que o estilhaçamento é o símbolo nosso, porque a nossa fala força a máscara. Porque todo nosso processo pra eu chegar aqui, foi preciso colocar o bloco na rua e esse bloco a gente não põe sozinha. Ninguém estuda autoria negra sem falar do Quilombhoje.

CC: Como foi pra você receber o prêmio Jabuti por “Olhos d’ água?
CE: Foi um momento muito feliz, mas ao mesmo tempo foi um prêmio da solidão. Eu desejei muito reconhecer ali os meus pares. E você vê que a literatura ainda é um espaço de interdição. A literatura como sistema, porque o texto é uma coisa, mas o sistema literário é formado por editoras, por críticos, pela mídia, pelas bibliotecas, livrarias, prêmios.

Nós podemos contar nos dedos os números de escritores negros que receberam o prêmio Jabuti. Um crítico literário pode dar visibilidade ao seu texto ao mesmo tempo que pode acabar com você como fizeram muitas vezes com a Carolina Maria de Jesus e continua se repetindo. O sistema literário está nas mãos das pessoas brancas. Por isso a importância das editoras que dão espaço para a autoria negra.
A escritora Carolina Maria de Jesus
A escritora Carolina Maria de Jesus, autora de 'Quarto de Despejo'
CC: Quais são suas expectativas para a Flip desse ano?
CE: Estou animada, fui convidada para essa edição. Não só eu, tem outros escritores negros e de países africanos. E a nossa presença na Flip se dá muito por conta do texto de Giovana Xavier (professora da UFRJ) o “Arraiá da Branquidade”. Esse trabalho nosso de enfrentamento tem de ser coletivo. Porque se eu não tenho esse texto da Giovana amparando minha voz, o resultado poderia ter sido menor. Mas acho importante a gente estar lá também como leitores e leitoras que somos.

CC: Que dicas você daria para as mulheres mais jovens que sonham em ser escritoras?
CE: A primeira dica que dou é dizer que a literatura é a arte da palavra. O bom musicista treina por horas, escuta música. Eu acredito inclusive naquele sujeito que é autodidata, que estuda muito também. Eu acredito que a gente precisa ter esse cuidado de que estamos produzindo arte. Você está lidando com a palavra e se a gente quer se colocar como alguém que está produzindo literatura, precisamos ter consciência daquilo que estamos produzindo. Não pode divagar: o primeiro exercício é escrever, depois a gente vê como publica. Mas vamos escrever primeiro e não cair na ilusão de que a literatura vai nos acolher logo. É um exercício de escrita e de militância.

CC: Tem uma frase sua que diz “a nossa escrevivência não pode ser lida como 'canções para ninar os da casa grande', mas sim para incomodá-los em seus sonhos injustos”. Poderia explicar?
CE: O nosso enfrentamento é necessário, mas é preciso sabedoria. Às vezes a gente coloca a cara para bater e o outro só quer te desconcertar. Mas é a idade que vai dando isso pra gente. Que te permite avaliar o inimigo, deixar o inimigo se distrair, deixar o inimigo esbravejar e aí a você chega. Agora, essa história de amor, eu acho muito complicado porque me lembra algo cristão. Justamente por sermos todos irmãos é que eu quero tudo o que você pode ter. O irmão pressupõe partilha, então cadê o meu? Então é preciso enfrentar com cuidado, senão você se machuca e o “irmão” ainda leva tudo o que é seu.

CC:Como está sendo pra você ter a Ocupação Conceição Evaristo?
CE: Olha, a ficha ainda está caindo, mas é muito bom perceber que o seu texto cai na emoção do outro, mexe com o outro. E é muito meus textos fazerem sentido na vida das pessoas. Mas mais do que isso, eu espero que essa Ocupação ajude a mudar o imaginário das pessoas de colocar as mulheres negras somente em lugares subalternos e submissos. É pensar que as mulheres negras estão produzindo na área da literatura, filosofia, psicologia, medicina. É pensar que todas competências que uma pessoa branca pode ter, as mulheres negras têm. Que essa ocupação sirva para despertar sobre o que outras mulheres negras estão fazendo.

Carta Capital

Ouvimos as mulheres que tiveram a vida inundada pela Hidrelétrica de Tucuruí

Projeto da ditadura militar no sudeste do Pará expulsou mais de 20 mil pessoas de suas casas; até janeiro último, as famílias ainda estavam recebendo indenizações pelo estrago

por Vitória Mendes | 2 de maio de 2017

Apenas em janeiro deste ano, a Eletronorte, Centrais Elétricas do Norte do Brasil, terminou enfim de pagar indenizações para milhares de famílias deslocadas compulsoriamente de suas casas por causa de uma mega-hidrelétrica na Amazônia. Não, não se trata de Belo Monte, mas de uma história que, mais de 30 anos depois, ainda não acabou para aquelas pessoas: a construção da Hidrelétrica de Tucuruí pelo regime militar.

Entre setembro de 2016 e janeiro de 2017, a empresa de energia pagou R$ 5.088,00 a 2.343 famílias removidas à época da construção da barragem no rio Tocantins. A indenização refere-se a um programa social compensatório que deveria gerar renda através de cooperativas em cada município que faz parte da região do lago de Tucuruí, no sudeste do Pará, o Proset. Não deu certo. “O rastro dessa barragem nos trouxe muito prejuízo”, conta o morador da zona rural do município de Breu Branco, Carlito Nascimento: “Muito prejuízo e muito sofrimento pra todo mundo”, resume a aposentada Olgarina Araújo.

Assim como eles, todos os primeiros moradores do município foram parar lá contra a vontade. O Novo Breu, como é chamado pelos mais antigos, só nasceu por causa da vila de Breu Branco, um dos territórios inundados pelo lago artificial formado pela hidrelétrica. Com 2875 km² de área, o lago formou 1.660 ilhas e levou para o fundo todos os territórios que ficavam entre os municípios de Tucuruí e Jatobal, interligados pela Estrada de Ferro Tocantins, além de terras dos municípios de Jacundá e Itupiranga. Um processo que desde o levantamento inicial, feito por técnicos do governo militar em 1978, até a remoção nos primeiros anos da década de 1980 expulsou mais de 23 mil pessoas de suas casas.

“Quando chegou o tempo da mudança, eles chegaram com o caminhão, botou a mudança em cima, já tinha as casinha aqui pronta, casa de madeira, com telha Brasilit, e aí nós recebemos as casas. Até fiquemo alegre, porque eu não tinha uma casinha como aquela, com banheiro dentro de casa. Só que nós fomos colocados dentro de uma casa, com a mulher e os filhos, sem apoio nenhum”, conta Carlito Nascimento.

Após 32 anos desde a conclusão da primeira fase da obra, as memórias permanecem vivas. Construída entre 1975 e 1985 pela empreiteira Camargo Corrêa e operada pela Eletronorte, a hidrelétrica chegou à vida dessas pessoas acompanhada da promessa de progresso e desenvolvimento para a região. O objetivo era gerar energia a baixo custo para projetos de extração mineral como a Alumínio Brasileiro AS (Albrás) e a Alumina do Norte do Brasil S.A. (Alunorte), no Pará, e o Consórcio de Alumínio do Maranhão (Alumar).

Um dos relatórios da Comissão da Verdade (CNV) destaca que tanto a Usina Hidrelétrica quanto a Estrada de Ferro Carajás foram construídas para apoiar a exploração do minério no Pará e impactaram diretamente não apenas camponeses, como também vários povos indígenas da região. “Os Parakanã, por exemplo, contatados e removidos para possibilitar a estrada Transamazônica, seriam removidos novamente para dar lugar ao lago de Tucuruí. Seriam deslocados cinco vezes entre 1971 e 1977”, afirma a CNV.

Apenas a primeira fase da obra custou US$ 7,5 bilhões, e até hoje existem controvérsias quanto ao valor total, já que o regime era pouco transparente sobre os gastos e a imprensa, censurada. Hoje, Tucuruí gera mais de 8.000 megawatts e abastece parte do Pará, Maranhão, alguns estados do Nordeste e, complementarmente, do Sudeste e Sul do Brasil.

Um relatório da Comissão Mundial de Barragens sobre a usina publicado em 2000 expressa que “a existência de setores até hoje insatisfeitos com as políticas de indenização e ressarcimento indica as consequências da postura existente à época da implantação do empreendimento de negar a existência de conflitos de interesse em relação ao projeto, em nome de um ‘interesse geral’ definido por ‘instâncias superiores’. A indefinição de uma política setorial para o trato das questões sociais determinou que os critérios de indenização e ressarcimento dos segmentos sociais afetados pelo empreendimento fossem sendo estabelecidos em paralelo aos processos de deslocamento e reassentamento, pressionados pelos movimentos sociais organizados”.

Deslocamento e memória

Jorge Mercês, antropólogo do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará, argumenta que o deslocamento compulsório causado pela barragem gerou efeitos além dos que podem ser compensados com indenizações: “O que a gente tem como narrativa central dessas pessoas é a ideia de que eles não estão no lugar deles. É a ideia do não pertencimento, do não fazer parte daqueles espaços onde estão. E como manifestam isso? Visivelmente através da incessante reforma nas casas. Há 32 anos os moradores vêm reformando as casas deles”.

A moradora Osmarina Carvalho concorda: “Se não tivesse barragem, a gente não saía, não. De jeito nenhum. Porque a gente vivia bem, né?”. Carlito Nascimento lembra-se de cada detalhe do lugar afogado: “Era uma vila pequena, tinha umas 400 casas, mais ou menos. Mas era muito boa de se morar. Pra ser sincero, eu ainda não morei num lugar melhor do que lá. Fartura, tinha de tudo. Se a gente fazia uma rocinha pra ajudar, aí pronto, não precisava mais de nada. Porque tinha castanha à vontade. Peixe sobrava, caça também… Eu tinha uma vida boa, que a gente não consegue esquecer”.

A vila que hoje existe apenas na memória fazia parte de uma região onde 14 povoados se constituíram à margem da Estrada de Ferro Tocantins, cuja construção foi iniciada em 1893 e concluída só em meados do século seguinte. À beira da ferrovia de 117 km, famílias, igrejas, escolas, pequenos comércios e comunidades se formaram. O transporte era um meio para as trocas comerciais, em especial o escoamento da castanha-do-pará, abundante na região. O tráfego de trem começou a ser interrompido em 1967 e foi desativado em 1973.

Localizada a sete horas de distância de Belém e a 15 minutos da Vila Permanente de Tucuruí, a atual cidade de Breu Branco, ou Novo Breu, para os moradores, tem uma população estimada em 62.737 habitantes, segundo o IBGE. O comércio e a prestação de serviços são importantes atividades econômicas, já que a desconexão com o rio Tocantins não permite o desenvolvimento da agricultura, pecuária e extrativismo de forma expressiva. O setor industrial é o maior responsável pelo Produto Interno Bruto da cidade, embora seja a segunda atividade que mais gera empregos, ficando atrás dos serviços. A principal atividade é a extração de madeira.

Por meio da Gerência de Implantação de Ações Socioambientais, a Eletronorte afirma que “onde existiu alegação de que a Eletronorte impactou, ela esteve no local, fez o levantamento com técnicos especializados e avaliou em função de valores de mercado, levando em consideração o social – a parte sentimental inclusive –, e ressarciu. Aqueles que não concordassem com o resultado dessa análise tinham a liberdade de ir à Justiça”, explica o engenheiro Francisco Assis Fernandes.

Segundo ele, foram abertos 5.700 processos exigindo indenização pelas casas e roças inundadas por causa da formação do lago à época da construção da barragem – todos os casos, diz o engenheiro, foram pagos.

No entanto, para muitas famílias, o valor recebido não foi o suficiente para compensar as perdas, o que gerou sentimento de injustiça. São homens e mulheres que mesmo após as décadas transcorridas ainda sentem as consequências da desterritorialização – e não se conformam com o afogamento de suas histórias. A Pública ouviu o relato de três mulheres, hoje idosas, sobre a vida inundada por Tucuruí.

Por conta de um escorregão, Olgarina lembra que o joelho doía e latejava, impedindo-a de ir muito longe da rede onde deitava todas as noites. Uma chuva forte alagara o pedaço de terra na Vila Permanente, onde os deslocados pela Usina Hidrelétrica de Tucuruí montaram acampamento em 2004. Mas Olgarina sabia que precisava estar ali cozinhando carcaça de peixe, resto de carne ou algum alimento doado num fogão improvisado, aquecido com a lenha descartada na feira. “Pra ir atrás dos meus direitos. Se hoje em dia eu tenho é porque corri atrás.”

A razão que levou Olgarina a passar um ano e 20 dias “debaixo do plástico”, como ela descreve o único episódio de sua vida cuja duração quantifica com tanta exatidão, foi o afogamento de sua história anterior. Todos os lugares onde viveu antes de ser levada para Breu Branco submergiram no lago imponente de Tucuruí.

Nascida no povoado chamado Km 52, nome do trecho em que se localizava à beira da Estrada de Ferro Tocantins, Olgarina construiu a maior parte de sua vida nessa região do médio Tocantins. Depois se mudou para a “Funaia”, território indígena da Funai, e de lá seguiu para “Remansão do Centro”, onde se casou pela primeira vez e teve três filhos, e onde o marido –cujo nome prefere não mencionar – a abandonou. “Nunca tive tempo pra gozar a vida e brincar, porque era desse jeito as coisas. Mas também nunca dei nenhum filho meu, criei tudinho”, orgulha-se. Do Remansão, foi para o Breu Velho, onde casou pela segunda vez. “Lá no Breu tudo era mais fácil. Lá era a melhor praia do mundo que tinha. Era só peixe bom. Naquele tempo era muito bom, menina! Até as festa era boa. Agora não presta mais”, diz.

Foi em um dia comum no Breu que a notícia da construção da barragem chegou. Ela conta que precisou assinar, mesmo sem saber ler, diversos documentos, como o Termo de Desistência, em 10 de maio de 1980. Ali declarou, contra a sua vontade, ter “ciência” de que a área ocupada passava a integrar patrimônio da Eletronorte e que nada mais lhe pertencia. Quando chegou ao Novo Breu, não havia água encanada. Todos usavam um banheiro que ficava na rua, coletivo. “Nós sofremos demais nesse Breu”, diz. Para sobreviver, ela contou com os alimentos que ainda sobraram da antiga casa. “Tudo era mato. Tinha um alojamento da Camargo Corrêa e na hora do almoço as crianças iam pedir marmita pra eles. A merenda do colégio também salvou.”

O terreno que a empresa concedeu aos moradores para a roça era longe das casas, e não havia transporte para chegar até lá. O remédio foi arranjar um emprego em uma das mais de 200 serrarias que se instalaram na região, “carregando farrapo pra jogar dentro do fogo”. Depois, ela passou mais quatro anos como empregada doméstica, trabalhando na cozinha, cuidando da casa, lavando roupa à mão. “Foi no tempo que eu tava cansada, não tava aguentando tanta canseira.”

Quando as 23 comportas da usina foram abertas pela primeira vez, despejando mais de 5 mil metros cúbicos de água por segundo na região da jusante do rio Tocantins, o nível do lago baixou consideravelmente. Os deslocados organizaram uma viagem de barco pelo lago e Olgarina participou, mas já não se lembra ao certo do ano. Conseguiram passar dois dias acampados nos seus antigos lugares e puderam rever os restos do que tinha ficado submerso. Algumas pessoas tentaram tirar do antigo cemitério os corpos dos seus familiares mortos para levar ao cemitério do Novo Breu. Não conseguiram. “Esses morreram duas vezes”, comenta ela.

Com o dinheiro da indenização pelo Proset, recebido em outubro de 2016, Olgarina planeja concluir a reforma da casa em que vive até hoje. A casa ainda não tem cores, mas já possui uma porta de vidro, janelas novas, móveis, dois quartos e a televisão em que assiste às novelas baseadas em histórias bíblicas. No quintal, ela cria patos, galinhas, cachorros e gatos e cuida de várias plantas. Frequenta o culto da Igreja Mundial e costuma sentar-se na frente do portão para conversar com os vizinhos e pegar um vento. Costuma ir a Parauapebas para visitar a filha. Seguiu a vida.