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quinta-feira, 29 de junho de 2017

‘Afeminofobia’: o desafio de ser autêntico em um mundo que cultua o macho



Tony, o arquétipo do jovem gay que teme por sua masculinidade na série '13 Reasons Why'
Tony, o arquétipo do jovem gay que teme por sua masculinidade na série '13 Reasons Why'

“Já conseguiram seus direitos, podem se casar e até adotar crianças. O que mais querem? Por que precisam fazer de sua sexualidade uma bandeira e chamar tanto a atenção?”. “Mais um ano em que precisaremos aguentar essas bichas loucas em seus trios elétricos soltando purpurina. O que isso tem a ver com o fato de uma pessoa gostar de outras do mesmo sexo?”. São comentários comuns nas datas próximas à comemoração do Dia Internacional do Orgulho LGBT. Ou como me disse um taxista certa vez, em Madri, “Eu respeito os gays. Não tenho nada contra eles, mas por que precisam se vestir de forma tão ridícula?”.
afeminofobia, o desprezo por aquelas pessoas que saem de seus papéis de gênero. Ou seja, contra os homens afeminados e as mulheres masculinas, é a prova definitiva que confirma que os homossexuais não são tão respeitados como se acredita, uma vez que contém uma regra nunca dita, mas interiorizada por muitos: você pode ser gay ou lésbica, mas sem dar bandeira. Uma regra seguida não só por membros do mundo hétero, mas também por alguns do universo homossexual, que ainda estigmatizam seus camaradas menos discretos.
Os sites de contatos entre homossexuais, como o Grindr, são a prova concreta de que a aversão a quem dá bandeira está mais viva do que nunca. Um artigo da revista Vice, chamado Afeminofobia, racismo e discriminação nos aplicativos de encontros gays, recolhe expressões retiradas desses aplicativos como: “Busco caras muito masculinos. Se alguma vez você percebeu que é gay não vou me interessar”. “Se você não admite que dá bandeira vá a um psicólogo. Não tem nada de ruim, mas não venha brigar comigo por te falar o que todo mundo pensa”. “Somente caras muito machos”, “passivos não” e “não quero passivos”. Tempo é dinheiro e o objetivo de muitos dos que usam esses aplicativos é conseguir uma transa, de modo que não há espaços para sutilezas, é preciso ser claro e objetivo para encontrar o que se busca no menor tempo possível.
O autor do artigo conta como foi encarregado de fazer um vídeo de uma festa gay para “caras muito machos”. “Era um evento em que o público gay assistia a um espetáculo erótico, em que homens seminus se beijavam e se tocavam. Gravei o show e o ambiente da sala. Quando mandei o vídeo o organizador da festa me disse: “Gostei muito, mas você filmou dois veadinhos que eu mataria”.
Um estudo publicado pelo site Gay Times revela que mais da metade dos gays não afeminados (57%) acha que seus colegas afeminados dão uma reputação ruim ao coletivo homossexual masculino. O relatório, assinado por Cal Strode, entrevistou 280 gays do Reino Unido e Califórnia e comparou as opiniões dos que se autodenominavam straight-acting (não afeminados) com o resto. Os dados mostraram conclusões importantes entre o coletivo straight: esses sofreram 33% a menos de episódios de homofobia na escola do que seus companheiros afeminados e 35% deles concordavam com essa afirmação: “Eu me identifico mais com a comunidade heterossexual do que com a gay”.
afeminofobia, entretanto, não é vivenciada somente pelos homossexuais e pode afetar também os heterossexuais, os bissexuais e as transexuais, sempre e quando não cumprirem com seus papéis de gênero. O relatório Abrazar a diversidade, elaborado pelo Instituto da Mulher em 2015, mostra que 20% dos estudantes espanhóis foram testemunhas de agressões homofóbicas e transfóbicas nos colégios. Uma violência que não ocorre somente contra meninos e meninas que manifestaram sua orientação sexual, mas contra aqueles que unicamente apresentam comportamentos próprios do outro sexo.



A 'afeminofobia' sempre precede a homofobia

Aitor Sebastián, de 25 anos (Madri), ator e vendedor de uma loja, foi estuprado aos 15 anos por um homem heterossexual. “Sofri a agressão porque era afeminado e dava para perceber que eu era gay. Ainda hoje saio à rua e ouço coisas que as pessoas dizem de mim, pelo meu modo de andar e meus gestos, até mesmo crianças. Tenho um irmão gêmeo que é heterossexual e quando éramos pequenos sempre o invejava porque era normal e ninguém tirava sarro dele. Quero dizer com isso que a pessoa nasce afeminada, não é algo fingido que interpretamos 24 horas por dia, como muitos acreditam. É possível exagerar, especialmente quando se está com outros gays, mas é parte de sua personalidade. Além disso, sem as reivindicações feitas pelos veadinhos afeminados no início da luta pelos direitos do coletivo gay, hoje em dia não teríamos visibilidade. Foi graças a eles que agora a homossexualidade começa a ser vista como algo normal e cotidiano, e não graças aos que dissimulavam e se comportavam como heterossexuais”, diz Sebastián, que reconhece, “ainda tenho amigos complexados por serem afeminados, que lutam para que os outros não notem”.
Juan Fran, 28 anos (Córdoba), homossexual, morador de Madri e funcionário de uma agência de comunicação, afirma que “a afeminofobia, além de ser uma homofobia interiorizada, esconde também um certo grau de misoginia e machismo, já que denuncia e ridiculariza tudo o que é relacionado ao lado feminino”. Juan, assíduo no ambiente gay de Chueca, acredita que esse coletivo está se voltando ao conservadorismo. “A maior parte das festas são para ‘homens masculinos’, tentam fazer com que o modelo do gay se distancie muito da ‘bicha louca’ e do ‘veadinho’ e que seja um homem branco, ativo, macho, de classe média-alta e com um trabalho estável”.
Segundo Marta Pascual, sexóloga, psicóloga e responsável pela assessoria sexual do COGAM (Coletivo de lésbicas, gays, transexuais e bissexuais), em Madri, “de fora dizemos que ‘dão bandeira’ pessoas que não se comportam de acordo com seu sexo designado, independentemente de sua orientação sexual. Na sexologia, entretanto, entendemos que somos pessoas sexuadas construídas no modo masculino e/ou feminino. Existem estruturas e processos que nos moldam com caracteres sexuais primários, secundários e terciários (papéis de gênero), que produzem em cada pessoa uma mistura única em diferentes níveis de sexuação: genético, neuronal, cognitivo, emocional, condutual, erótico. Isso significa que todos e todas nos desenvolveremos a partir de uma intersexualidade, e que nadamos nela. O que implica que eu posso ser uma mulher que cognitivamente funcione de uma forma masculina (orientada a resultados) ou feminina (orientada a processos); com um repertório emocional mais sensível e empático (mais próprio das fêmeas), ou mais determinante e resolutivo (mais comum nos machos), com uma gama de comportamentos sociais e eróticos mais inclinada a um sexo do que a outro; e um aspecto, gestualidade e expressão mais ligados ao feminino ou ao masculino. E no caso dos homens acontece exatamente o mesmo. Depois parece que não há lugar à simulação e ao fingimento. É somente uma forma de viver o ser sexuado”.



afeminofobia não é exclusiva dos homossexuais homens. As lésbicas também a sofrem, mas de maneira diferente. Segundo Marta Pascual, “possivelmente entre os gays se vive com maior sentimento de traição e se castiga com uma determinação mais masculina, já que falamos de homens. Entre as mulheres pode ser mais ou menos incômoda, mas considero que tem menos presença”.
Ana, 44 anos (Madri), engenheira de telecomunicações, se define como “uma mulher com um lado masculino muito acentuado. Como me visto, em meus gestos e em meu comportamento”. Ainda que fique bem distante da imagem de “caminhoneira”, Ana precisa suportar essas expressões sutis de afeminofobiadisfarçadas de conselhos bem-intencionados por parte de familiares e amigos. “Amiga, se você se arrumasse um pouco mais, ficaria incrível. Você é tão bonita”, “sempre de calça, amiga você tem pernas lindas. Mostre-as!”, “por que você não se maquia um pouco”, “já experimentou deixar o cabelo comprido?”. “Uma vez fui a uma oficina de expressão corporal livre e a professora me recriminava o tempo todo que eu não explorava mais minha feminilidade, em uma atitude de mulher sexy e desejável”, comenta Ana. “Eu diria que entre lésbicas há menor repúdio ao ‘dar bandeira’ do que no coletivo gay. Eu me sinto realmente questionada entre as mulheres heterossexuais; porque com os homens, com os que me relaciono em meu trabalho, no mundo do esporte e socialmente, nunca tive problemas. Ainda que a filosofia “tudo bem, você é lésbica, mas sem dar bandeira e nos apresente suas namoradas como amigas” ainda impere em muitas esferas. Por exemplo, na familiar”.

Por mais mulheres em todas as profissões

Germana Barata é pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (Nudecri), Unicamp, e pesquisadora visitante da Universidade Simon Fraser, no Canadá, com Bolsa Fapesp (Processo 2016/14173).
É membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC) e uma das autoras do blog Ciência em Revista.

QUI, 22 JUN 2017

TEXTO



Ilustração: Luis Paulo Silva Bombeiras, técnicas de TV a cabo, motoristas de ônibus, mulheres na construção civil, nas forças armadas ou trabalhando como mecânicas de carros, engenheiras, físicas e matemáticas. Elas estão cada vez mais presentes em profissões tradicionalmente masculinas. Pais que cedo levam seus filhos para a escola ou passeiam pelos parques e nas praças com seus filhos. Mudanças na presença de gêneros compõem o cotidiano na cidade de Vancouver, no Canadá, e que chamam atenção de uma brasileira desacostumada a notar sua presença no país natal e que, certamente, são também notados pelas novas gerações.
País com maioria feminina, com expectativa de vida que chega aos 84 anos <http://www.statcan.gc.ca/tables-tableaux/sum-som/l01/cst01/health26-eng.htm>, contra 80 para homens, e taxa de fertilidade de 1.6, segundo dados da OCDE de 2013, o Canadá está entre as dez nações consideradas de alto desenvolvimento humano e com índice de desenvolvimento de gênero na casa dos 0.983 e com expectativa de investirem um ano a mais na escola (16.8) do que os homens. Ainda assim, há ainda muitos desafios para as mulheres canadenses.

Foto: Reprodução
Elas fazem parte do cotidiano de Vancouver, seja como motoristas de ônibus ou no controle do trânsito. Fotos: Vancitybuzz (acima) e  arquivo pessoal (abaixo.)

Foto: Reprodução
Um deles se refere à escolha pela maternidade. Retornar ao trabalho depois de uma licença maternidade de 52 semanas (que pode ser compartilhada com o pai) pode ser complicado e caro. As escolas públicas só estão disponíveis para crianças a partir dos 5 anos, o que significa pagar por uma escola privada, contratar uma baby-sitter ou - mais frequentemente - parar de trabalhar neste período ou optar por um trabalho meio-período. Com isso, inúmeras mulheres qualificadas ficam de fora do mercado de trabalho por um bom par de anos. Este quadro certamente contribui para taxas per capita anuais 36% menores para as mulheres (CAD$33 mil ou cerca de R$81 mil) e presença maioritária nos trabalhos de meio-período (75%), um terço em função da maternidade.
Com relevância crescente na composição da agenda política do país e de suas instituições, a questão de gênero acalorou os debates nas campanhas eleitorais para premiês (líderes das províncias) deste ano, compõe os relatórios e estatísticas das universidades, o censo nacional e é tema diário no jornalismo.

Mulheres na ciência
O Ministério da Ciência é dirigido pela cientista Kristy Duncan <https://www.canada.ca/en/government/ministers/kirsty-duncan.html>, mas outros 14 dos 29 ministérios que compõem a equipe do primeiro ministro Justin Trudeau, incluindo o ministério do Status da Mulher no Canadá, são comandados por mulheres indicando uma real preocupação com esta questão no governo.
Assista ao video com depoimento da ministra da ciência do Canadá para promover a campanha Choose Science.
A ministra Kristy lançou, em fevereiro deste ano, a campanha Choose science”  (escolha a ciência) para incentivar meninas a explorarem e optarem pela ciência, tecnologia, engenharias ou matemática (a chamada STEM), áreas nas quais as diferenças entre gêneros são maiores. O programa também é voltado para familiares e professores apoiarem meninas nesta direção. Kirsty, que é também modelo para a campanha, afirma ter recebido tratamento discriminatório por ser cientista. “Em 2017, [as mulheres cientistas] continuam a sofrer as mesmas degradações, marginalização e desafios que eu sofri”, afirmou em entrevista recente para o jornal Globe and Mail.
No Canadá existem cerca de 1,4 milhão de profissionais em serviços técnico e científicos, dos quais 42,7% são mulheres, de acordo com dados do governo. Quando a análise se volta para os 604 mil cargos universitários nas ciências exatas, tecnologia, engenharias e matemática (STEM), o número cai para 22,7%.
Um olhar feminino para a SFU
Na Simon Fraser University (SFU), onde desenvolvo minha pesquisa, há um presidente (equivalente ao nosso reitor) e onze reitores (equivalente aos nossos pró-reitores) que administram a instituição, dos quais seis são liderados por mulheres.
Entre os alunos, as mulheres são maioria em 8 de 10 áreas, somando 54% do total de estudantes, de acordo com os dados do final de 2016 (igual ao nível nacional). Mas elas ainda são minoria nas engenharias (16,6%), embora estejam presentes de forma equivalente nas ciências (física, química e biologia), somando 49,9%. A diferença diminui na pós-graduação, contrariando a tendência global. Elas são 25,2% dos mestres e 22,4% dos doutores formados nas engenharias (superior aos 15% em nível nacional). Na ciência, o quadro é mais positivo, chegando a 47,3% de mestras e 40,6% de doutoras no ano 2015/2016 (superior à média nacional de 34%). Nas artes, ciências sociais, ciências humanas, comunicação, educação, área de saúde e ambiental, elas dominam em todos os níveis.
Mas quando analisamos o perfil de docentes da SFU, elas compõem 27,6% dos professores (cargo mais alto), 37,6% dos professores associados e 46,7% dos professores assistentes. Elas só são maioria entre os professores da educação, o que indica que esforços serão necessários para mudar, em médio e longo prazo, o chamado teto de vidro, no qual a ascensão feminina fica mais rara nos cargos mais altos.
Ter dados anuais de fácil acesso para a comunidade deixando claro o perfil demográfico de estudantes, professores, pesquisadores e funcionários ajuda a traçar políticas e avançar em direção à equidade de gênero. Mas ações afirmativas são fundamentais para acelerar mudanças concretas. Um passo importante partiu da Associação de Professores da SFU que investigou, em 2014, as diferenças salariais existentes entre gêneros realizando as mesmas funções de docência. Em setembro de 2016, a SFU divulgou acordo estabelecido entre a Associação de Professores e a presidência da universidade, que determinou aumento de 1,7% para todas as docentes mulheres, que trabalham em período integral, em todos os níveis de carreira. A SFU também estabeleceu um fundo de CAD$4,8 milhões (cerca de R$12 milhões) para compensar as diferenças salariais existentes entre docentes mulheres ao longo dos anos. Tal esforço partiu de um estudo realizado pela Universidade de British Columbia (UBC) em 2013 que apontou para diferenças salariais entre docentes.
A questão de gênero poderia ser mais um item levado em consideração nos rankings universitários, como uma forma de incentivar e valorizar ações de equidade. No Canadá, ações tentam na prática enfrentar as diferenças entre gêneros nas diversas camadas sociais. É animador ouvir a conversa entre mãe e filha em um centro comunitário. A mãe faz a clássica pergunta para sua filha, com idade de cerca de 8 anos: “O que você quer ser quando crescer?”, ao que ela responde sem pestanejar: “Bombeira”. Por um futuro onde as meninas, jovens e mulheres sejam incentivadas a ser o que quiserem e tenham possibilidades concretas e justas para exercer sua profissão.
DADOS E FATOS SOBRE O CANADÁ.
Arte: Luppa Silva
Links citados no quadro.
Foto: Dan Toulgoet/Vancouver Courier

Uma psicóloga no lugar certo

Maria Alice da Cruz estreia sua coluna sobre perfis de alunos e funcionários negros da Unicamp

SEG, 26 JUN 2017



Ilustração: Luppa SilvaOs olhos espertos da menina Renata Cristina Augusto Cardozo radiografavam o jovem campus universitário de Barão Geraldo, onde sua mãe, Nadir Augusto Cardoso, trabalhava. Estavam na década de 1970, momento em que a profissionalização ainda era privilégio de poucos brasileiros de família negra, mas a menina transportou seu sonho para a juventude, até se tornar a psicóloga Renata Cardozo, em 1998. “A Unicamp foi o lugar onde pude olhar para mim e descobrir que tinha potencial profissional, porque naquela época, como a maioria das famílias negras do Brasil, era normal acreditar que o único ambiente de trabalho para nós era a ‘casa de família’. Era o momento em que grande parte da comunidade negra deixava de trabalhar na casa dos outros para procurar uma carreira profissional, por meio das entidades como Guardinha e Patrulheiros.” Com este pensamento, incumbiu a mãe de buscar um local na Unicamp em que pudesse trabalhar.
Protagonista de uma das muitas histórias escondidas na vasta produção da Unicamp, a psicóloga da Prefeitura do Campus acredita ter estreado no mundo do trabalho no lugar certo, em 1984, aos 14 anos, num espaço de debate e reivindicações: o Diretório Central de Estudantes (DCE). Naquele momento, se confirmou o desejo pela psicologia. “Ali, pude olhar para mim e ao redor e descobrir meu potencial profissional. No DCE, descobri, também, que já havia um conjunto de pautas de reivindicações estudantis, onde pude começar a olhar sobre a questão racial, e isso foi importante no processo de construção de minha identidade”, recorda.
Naquele momento, o olhar de futura psicóloga projetou-se também para o ambiente externo à universidade. Engajou-se ainda jovem no movimento negro, onde encontrou as amigas da Casa Laudelina, uma frente feminina que exerce um trabalho social importante em Campinas. Nestas veredas do bem-fazer, a psicóloga passou a integrar também o projeto Promotoras Legais Populares, tocado por pessoas de vários segmentos sociais unidas no debate e no combate à violência contra a mulher.

Foto: Antonio Scarpinetti
Renata Cristina Augusto Cardozo: “A Unicamp foi o lugar onde pude olhar para mim e descobrir que tinha potencial profissional”

Psicóloga organizacional, no início dos anos 2000, em parceria com a Diretoria Geral de Recursos Humanos (DGRH) da Unicamp, Renata Cardozo desenvolveu ações para reduzir o desgaste físico de um grupo de profissionais da área operacional da Prefeitura do Campus, por meio de remanejamentos e acolhimento. “Havia um contingente operacional grande na Prefeitura do Campus, onde atuei como psicóloga. O tempo de permanência e a idade fazem com que algumas atividades se tornem pesadas e precisamos realocar os funcionários, porém a mudança de uma função com a qual está acostumado para outra tem de ser feita de forma positiva”, declara. Antes de chegar à Prefeitura do Campus, ela atuou também na área administrativa do Núcleo de Estudos Psicológicos (NEP) e no Parque Botânico.
Nestes 33 anos de dedicação à Universidade, é impossível não construir seu próprio pensamento crítico e, no caso de Renata Cardozo, com fundamento na literatura e na observação do comportamento humano. Atualmente, concilia as atividades na Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC) – onde atua como empréstimo – com a participação no Fórum de Integração Cultural Afro-brasileira da Unicamp (Ficafro), espaço de troca entre profissionais negros da Universidade para levantamento de iniciativas, trabalhos e pesquisas que abordem questões raciais.
Um dos temas pertinentes no Ficafro é a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, criada pela Portaria nº 992, de 13 de maio de 2009, do Ministério da Saúde. Segundo Renata, trata-se de uma política transversal que visa à promoção da saúde integral da população negra, priorizando a redução das desigualdades étnico-raciais, o combate ao racismo e a discriminação nas instituições e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a psicóloga, os resultados estimularam a realização da Feira de Mobilização Pró-Saúde da População Negra da Unicamp, realizada em outubro 2014 e 2015, a fim de oferecer prevenção e esclarecer sobre a prevalência de algumas doenças nesta etnia, entre elas pressão alta, diabetes, triglicérides e anemia falciforme. “O primordial desta política é a autodeclaração. Isso é importante para prevenção.”
Renata acredita que a Unicamp precisa estabelecer critérios reais de oportunidade para todos. “A Universidade precisa permitir que os funcionários trabalhem, se desenvolvam e cresçam; tenham a possibilidade de, ao longo da sua trajetória profissional, construir uma carreira. Que o racismo não seja motivo para um profissional ser colocado de lado”.
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Foto: Antonio ScarpinettiMaria Alice da Cruz é especialista em jornalismo científico pela Unicamp. Graduou-se em jornalismo pela PUC-Campinas e estudou produção e direção de TV e cinema na Escola de Formação de Cinema e TV, em Sousas. Atualmente, trabalha na Secretaria de Comunicação da Unicamp e é membro do Pacto Universitário de Educação em Direitos Humanos. É coautora do livro “Faço Parte Desta História 2”. Foi revisora, redatora web e assinou crônicas no jornal Correio Popular, de Campinas. Foi repórter do Jornal da Unicamp. Esta coluna revela aspectos da contribuição de alunos e servidores negros ao longo da história da Unicamp.

Unicamp

Pesquisa identifica assinatura molecular do Zika Vírus

Trabalho desenvolvido pela Unicamp e instituto A*Star, de Cingapura, acaba de ser publicado pelo “The Journal of Infectious Diseases”

QUA, 21 JUN 2017



Em estudo inédito, pesquisadores da Unicamp e do Singapore Immunology Network (A*Star) identificaram biomarcadores associados a complicações neurológicas provocadas pelo Zika Vírus. O trabalho gerou artigo que acaba de ser publicado pelo The Journal of Infectious Diseases, dos Estados Unidos, considerado uma das mais importantes revistas científicas do mundo na área de doenças infecciosas. “Tão importante quanto identificar os biomarcadores foi abrir perspectivas para novas pesquisas que permitam compreender os mecanismos de ação do vírus e os fatores associados a manifestações clínicas graves. Conhecendo melhor esse agente patogênico, teremos mais chance de combatê-lo”, considera o professor do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, Fabio Trindade M. Costa, um dos coordenadores do estudo.

Foto: Antonio Scarpinetti
Da esq. para a dir., Fabio Trindade Costa, José Luiz Proença Modena, Juliana Leite e Carla Judice: colaboração bilateral rendeu resultados significativos

De acordo com o docente, os pesquisadores da Universidade que participaram da investigação integram a Rede Zika Unicamp [ao todo, 29 profissionais da instituição são coautores do artigo], que reúne especialistas de diversas áreas do conhecimento. O objetivo da rede, criada em 2016, é desenvolver pesquisas que contribuam para enfrentar os graves impactos provocados na saúde pública pelas doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. Uma das iniciativas nesse contexto foi o estabelecimento de cooperação científica com o A*Star, de Cingapura, considerado um dos melhores institutos de pesquisa do mundo.
A colaboração bilateral, acrescenta Trindade, permitiu resultados muito significativos em apenas um ano de atividades. “Além do artigo publicado, nós temos outro já submetido a uma revista científica de alto impacto e um pedido de depósito de patente em fase final de tramitação”, elenca. Em relação à pesquisa que identificou biomarcadores associados a complicações neurológicas causadas pelo Zika Vírus, o professor do IB explica que a investigação foi realizada com cerca de 100 pacientes diagnosticados com o vírus, atendidos no Hospital de Clínicas (HC), no Hospital da Mulher Prof. Dr. José Aristodemo Pinotti (Caism) e na rede hospitalar do município de Campinas.
Os pesquisadores analisaram amostras sorológicas dos voluntários [homens, mulheres, grávidas e recém-nascidos], com o propósito de responder a três perguntas principais. A primeira delas era se o infectado pelo vírus apresentava alguma assinatura molecular. Ou seja, se tinha em seu sistema imune alguma molécula diferente daquelas encontradas no sistema de uma pessoa não infectada. A segunda questão foi se também haveria algum biomarcador específico nos pacientes adultos que desenvolveram síndrome neurológica [perto de 10% do total].
Por fim, a terceira pergunta era se os cinco recém-nascidos do grupo que desenvolveram síndrome neurológica apresentavam igualmente uma assinatura molecular particular. “Para as três perguntas, tivemos a mesma resposta, que foi ‘sim’. Os pacientes infectados e os que desenvolvem anomalias decorrentes da ação do vírus apresentaram um conjunto de moléculas que se diferencia das moléculas presentes no organismo das pessoas que não foram infectadas pelo vírus Zika”, explica Trindade.
A descoberta, segundo o docente, pode contribuir para que a medicina faça prognósticos mais seguros sobre o quadro do infectado. Dependendo dos níveis dos marcadores, os médicos terão uma indicação sobre o possível agravamento ou não do estado do paciente, o que permitirá uma intervenção mais precoce. Outra contribuição importante do estudo, destaca o professor do IB e também coordenador da pesquisa, José Luiz Proença Modena, é que, a partir dele, é possível vislumbrar novas investigações. “Ainda precisamos saber, por exemplo, se esses biomarcadores são causa, consequência ou se são ao mesmo tempo causa e consequência das anomalias. Ao esclarecermos essas dúvidas, teremos mais informações para combater o vírus”, reforça.
Além gerar novos conhecimentos sobre o tema, a parceria entre Unicamp e A*Star, observam os docentes do IB, também é importante para a formação de recursos humanos, dado que estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado da Universidade estão envolvidos no esforço de pesquisa. “Foi muito interessante poder dividir a bancada com pesquisadores de Cingapura, que estiveram nos visitando. Pudemos trocar experiências e aprender muitas coisas com eles”, atesta a pós-doutoranda Juliana Almeida Leite, com a concordância da também pós-doc Carla Judice, ambas pós-graduandas do IB.
O avanço do Zika Vírus tem preocupado diversos países além do Brasil, como informam os professores Trindade e Modena. A atenção tem sido maior onde o micro-organismo está chegando agora, como nos Estados Unidos, especialmente na porção sul daquele país. “O mesmo ocorre no México e Colômbia. Também é bom lembrar que a Índia identificou recentemente o primeiro caso autóctone de infecção por Zika Vírus. Trata-se de uma situação preocupante, principalmente se levarmos em consideração o tamanho da população do país, que supera 1 bilhão de pessoas”, pontua Modena.
Além dos dois coordenadores vinculados à Unicamp, o projeto de pesquisa conta com outros dois coordenadores por parte do A*Star, os professores Lisa F.P. e Laurent Rénia. No Brasil, as pesquisas são financiadas pela Unicamp, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em Cingapura, o financiamento é de parte do A*Star, que é um instituto de pesquisa privado.

Unicamp

Família humana ainda tem profundos preconceitos, diz Graça Machel



Quando se mudou do interior de Moçambique para a capital, Maputo, para ingressar no ensino médio, Graça Simbine estranhou o fato de ser a única negra em uma classe de 40 alunos.
Começava ali a trajetória de ativista da jovem que se formou em filosofia alemã pela Universidade de Lisboa e, de volta à terra natal, entrou para a história contemporânea da África como guerrilheira da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), ministra da Educação daquele país e viúva de dois presidentes do continente.
Ela foi casada com Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique independente, e Nelson Mandela, ícone da luta contra o apartheid na África do Sul. "Tive o privilégio de dividir a minha vida com dois homens excepcionais", declarou certa vez.
Após a morte de seu primeiro marido num acidente de avião, em 1986, Machel manteve luto por cinco anos. Após a morte de Mandela, em dezembro do ano passado, a ativista decidiu romper o luto em poucos meses para se dedicar à luta contra o racismo, o analfabetismo e a pobreza, e pelos direitos das mulheres e das crianças.
Neste final de semana, Machel, 69, vem ao Brasil para ser homenageada na Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra, que acontece no Memorial da América Latina, em São Paulo.
O evento sucede o Dia da Consciência Negra, celebrado nesta quinta (20). Apesar de reconhecer a importância simbólica da data, ela avalia que há pouco o que comemorar: "A família humana, ainda em 2014, tem preconceitos profundos com relação à pessoa de raça negra."
Leia a entrevista concedida à Folha por telefone.
*

Folha - Há diferença entre consciência negra no Brasil e na África?
Graça Machel - Sim e não. Sim porque a maior parte dos brasileiros veio da África. Mas os negros no Brasil misturaram-se com uma enorme diversidade de grupos, criando uma identidade diferente daquela dos africanos. Aqui na África, falamos em diáspora negra [imigração forçada pelos séculos de escravidão] e avaliamos que os negros no Brasil são diferentes dos negros da Colômbia, que são diferentes dos negros dos EUA, apesar de todos terem a mesma origem. Nós evoluímos e nos diferenciamos de acordo com os contextos.


Os negros, em geral, seguem em situação socioeconômica desprivilegiada em relação aos brancos. É esta a face atual do racismo?
Os negros no Brasil, nos EUA, na Colômbia e em toda a África ainda sofrem dos mesmos efeitos de serem desfavorecidos e discriminados com base na raça. A família humana, ainda em 2014, precisa reconhecer que tem preconceitos profundos com relação à pessoa de raça negra. Há razões históricas para isso, mas a história evolui e se transforma. E a pessoa de raça negra é que tem de se organizar para reclamar sua identidade e dignidade. Não há ninguém que te vai reconhecer se não valorizares a ti próprio. Cabe a nós reclamarmos o espaço e os direitos que nos são inalienáveis.


A África nunca teve tantos governos democráticos e vê hoje surgir uma pequena pequena classe média. Quais são os principais desafios do continente hoje?
Se fôssemos falar de todos os desafios, conversaríamos por uma semana inteira (risos). O principal deles é a aceitação da diferença como fator de reforço das sociedades e não de seu enfraquecimento: diferença étnica, racial, de gênero e religiosa. No nível político, precisa haver tolerância entre partidos políticos que processam de formas diferentes a construção de uma nação, cuja robustez vai se basear na busca de elementos positivos que conduzam a uma coesão social.
Um segundo desafio é a aceitação da alternância política. Em muitos casos, nós passamos de partidos únicos a democracias multipartidárias. Mas, mesmo nesse modelo, há certa resistência por parte daqueles que detêm o poder e, por isso, vemos países com os mesmos chefes de Estado há 20 ou 30 anos.
O terceiro desafio é o do crescimento econômico, que ocorre sem equidade, o que nos caracteriza como um continente com desigualdade e estratificação social gritantes.


No final de outubro, Burkina Fasso depôs seu presidente, o ditador Blaise Compaoré, que estava há 27 anos no cargo. Fala-se no surgimento de uma "primavera africana", em referência à derrubada de regimes ditatoriais ocorrida em países árabes durante 2011. Podemos assistir à queda de ditadores como Robert Mugabe (Zimbábue) em breve?
Não estou certa de que estamos diante de uma primavera africana. A derrubada do ditador de Burkina Faso é um aviso àqueles que dirigem países há décadas: o que ocorreu ali pode acontecer em outros sítios. Mas as condições são bem diversas entre países e é preciso ter cautela.


A sra. tem militado contra os chamados casamentos prematuros: arranjos em que meninas, às vezes ainda durante a infância, são submetidas a matrimônios forçados.
A questão dos casamentos prematuros forçados é um fenômeno global. Acontece na África, mas também na Ásia e na América Latina.
Quando a família está sob pressão para resolver problemas econômicos, facilmente acredita que pode entregar uma filha a um casamento para aliviar os problemas de pobreza. Mas não é a pobreza que é o problema. O problema é a crença de que há um valor diferente que se atribui a uma mulher e a um homem.
Outro exemplo: não há um único país do mundo que tenha eliminado diferenças salariais entre homens e mulheres que ocupam os mesmos cargos. Para igual trabalho, pensa-se que a mulher pode ganhar menos do que o homem. É a mesma raiz do problema. Assim como no fato de muitos homens se acharem no direito não apenas de bater como de até mesmo matar suas companheiras por causa de um conflito.
Devemos olhar para casamentos prematuros, desigualdade salarial, dificuldade de ascensão e violência contra a mulher pela mesma raiz: não se valoriza a mulher como se valoriza o homem. A questão de gênero é dos maiores problemas que a família humana enfrenta, ao lado da questão da raça. Ambos têm as mesmas características e afetam toda a sociedade.

Lucas Jackson - 23.set.2014/Reuters
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Folha de S. Paulo

quarta-feira, 28 de junho de 2017

PEC contra aborto usa argumento científico falso

por Anna Beatriz Anjos | 20 de junho de 2017

Magno Malta (PR-ES) diz que a ciência comprovou que a vida começa na concepção, mas especialistas contestam parlamentar

O senador Magno Malta (PR-ES), que defende que a vida começa na concepção.
O senador Magno Malta (PR-ES), que defende que a vida começa na concepção. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
“Os enormes avanços na ciência registrados nos últimos 20 anos na fetologia e na embriologia, com o conhecimento do nosso DNA, vieram ressaltar a concepção como o único momento em que é possível identificar o início da vida humana.” – Magno Malta (PR-ES), senador, no texto de justificativa da PEC 29/2015.
Falso
Em 2015, o senador Magno Malta (PR-ES), integrante da bancada evangélica, apresentou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 29, com o objetivo de garantir a inviolabilidade do direito à vida “desde a concepção”. Para isso, o texto propõe a alteração do artigo 5º da Carta. Como a Constituição se sobrepõe às demais leis brasileiras, a PEC, na prática, tornaria proibido o aborto em qualquer circunstância, inclusive naquelas em que o procedimento é legalmente permitido – gravidez decorrente de estupro, risco de vida à mãe e anencefalia do feto.

No texto de justificativa da matéria – que, no momento, aguarda para ser apreciada na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, com parecer favorável do relator Eduardo Amorim (PSDB-SE) –, Malta se vale de conceitos supostamente científicos para sustentar seu ponto de vista. O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – entrevistou especialistas e classificou o trecho destacado como falso, pois, nos últimos 20 anos, a ciência não chegou à conclusão unânime de que a concepção é o único momento em que começa a vida.
Seguindo a metodologia do Truco, o primeiro passo da checagem foi questionar a assessoria de imprensa do parlamentar sobre a fonte das informações citadas. O pedido, no entanto, foi ignorado. Uma nota foi enviada ao final do processo de apuração, apenas depois de o senador ser informado de que a frase havia sido classificada como falsa (veja ao fim da reportagem).
A primeira questão colocada em xeque logo de partida pelos pesquisadores diz respeito às áreas de estudo mencionadas por Malta. “O que existe é a embriologia clínica e a medicina fetal. Fetologia é um termo que nunca usei em sala de aula, nem em minhas pesquisas”, diz Wellerson Rodrigo Scaranoprofessor de embriologia humana da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Scarano contesta também a afirmação de que “o conhecimento do nosso DNA” reforça a ideia da concepção como início da vida. “Essa justificativa é um pouco equivocada, pois você tem DNA onde não há vida. Por exemplo, ao pegarmos a ossada de alguém que morreu há algum tempo, se houver a preservação da molécula, há ali DNA que te traz informações, mas não necessariamente existe vida”, aponta.
A professora Estela Bevilacqua, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), explica que a manutenção da vida de uma célula depende de outras condições para além da existência do DNA. “É a funcionalidade a partir dele que faz uma célula ficar viva, respirar, se nutrir, trabalhar em conjunto, fazer um tecido. Ela depende do DNA obviamente, mas não é o DNA, são as proteínas que vêm depois e vão se especializando em funções específicas”, coloca.
E a discussão sobre o início da vida? Malta estaria correto ao declarar que a concepção é “o único momento” passível de ser considerado como o começo da existência de um ser humano? Os especialistas ouvidos pelo Truco são unânimes em destacar que a ciência tem formas diferentes de identificar o instante em que a vida humana se inicia, o que torna a afirmação do senador equivocada, pois não há uma que seja encarada como verdade absoluta.
Neurologicamente, isso ocorre quando “o sistema nervoso passa a ter capacidade de resposta ao meio ambiente”, o que, segundo Bevilacqua, aconteceria entre o fim do segundo e o começo do terceiro mês de gestação. Do ponto de vista genético, basta haver fertilização – isto é, o encontro entre espermatozóide e óvulo com a combinação de seus genes – para que exista um novo indivíduo com conjunto genético único. Já para a embriologia, é necessário que aconteça a gastrulação, processo em que, por volta da terceira semana de gravidez, o embrião passa a ter três camadas de células. “É o momento em que surge a individualidade daquele embrião, que começa a ter identidade própria”, pontua Bevilacqua.
“Vamos dizer que ele [Magno Malta] defenda a ideia de que concepção é a fecundação, o encontro do espermatozóide com o óvulo. Isso não inicia a vida humana, porque ela não existe sem a placenta. Se esse zigoto não se implantar [no útero da mãe] – o que acontece o tempo todo, não sabemos nem a frequência, pois é algo espontâneo – não tem vida humana”, ressalta a também professora do ICB-USP Irene Yan.
Estima-se que mais de 50% dos óvulos fecundados não resultem em embriões por várias razões: incapacidade de se implantar no útero ou problemas genéticos que impedem seu desenvolvimento são algumas delas. Em outras palavras, “nem sempre, quando há um zigoto, há a formação de um indivíduo”, frisa Scarano. Há ainda uma outra questão na qual esbarra a teoria de que a fecundação (ou concepção) inicia a vida: um zigoto pode sofrer divisões a caminho do útero e dar origem a mais de um indivíduo.
A menção à embriologia na justificativa da PEC foi, na visão das professoras da USP, uma tentativa de “jogar com as palavras” para conferir credibilidade à tese defendida pelo senador. “É uma proposta estritamente baseada em preceitos filosóficos, religiosos, na qual Magno Malta tentou introduzir embasamento científico que não procede. A embriologia não está interessada em dizer quando começa a vida; para nós, espermatozóide e óvulo já são células vivas que vão formar uma célula viva diferente e assim por diante”, esclarece Yan.
Thomaz Gollop, coordenador do Grupo de Estudos sobre o Aborto (GEA), concorda que a matéria de autoria de Malta recorre à ciência para fundamentar um ponto estritamente religioso. “Se o senador Magno Malta defende esta posição, perfeito. O que ele não pode é definir isso para todo mundo, porque tem gente que pensa de maneira diversa”, salienta.
De acordo com o médico, caso aprovada na Câmara e no Senado (precisa ser votada ao menos duas vezes em cada Casa), a PEC inviabilizará de vez o atendimento às mulheres que por lei têm direito ao aborto – serviço que já funciona de maneira pouco eficiente, como demonstrou reportagem da Agência Pública de maio de 2014. “Isso é uma injustiça. Você vai obrigar a mulher que engravidou em decorrência de violência a ter um filho; vai obrigar a mulher que está em risco de vida em função da gravidez a piorar sua condição e vai obrigar uma mulher grávida de um feto anencéfalo a levar a gestação até o fim, sendo que o feto não tem nenhuma perspectiva de vida extrauterina”.
Ao ser comunicado de que o trecho checado havia sido classificado como falso, Magno Malta enviou a nota abaixo. Nela, volta a dizer que a “vida começa na concepção”, afirmação já contestada pelos pesquisadores entrevistados pelo Truco. Também usa 12 citações de pesquisadores ou trechos de livros, dos quais 11 têm mais de 20 anos – ou seja, deixam de fora análises das últimas duas décadas sobre o tema. “O problema está no conceito do que é vida, e não na ideia de que o zigoto é o primórdio do ser humano. Conceituar o zigoto como vida humana é diferente de considerá-lo como primórdio do ser humano”, reafirmou Scarano, da Unesp, ouvido novamente.
Quanto a justificativa da PEC 29/2015 o Senador Magno Malta tem a informar:
Aceita a PEC 29/2015 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, será formada uma Comissão Especial onde a mesma passará a ser amplamente debatida e assim a  curta justificativa trazida pelo autor será provada com as devidas fontes e argumentações científicas.
Cientistas serão ouvidos.  A ciência terá seu devido espaço,  não em poucas linhas,  em uma rápida matéria jornalística,  ou em uma rápida entrevista,  mas  a ciência terá o espaço que merece e necessita para provar o o óbvio.
Renomados cientistas serão convidados para o debate.
É certo que existem correntes divergentes sobre a origem da vida.  Mas ao declarar que, na justificativa da PEC 29/2015 que a vida começa na Concepçao, o autor se baseou na corrente dominante,  e com base  em inúmeras obras,  entre elas:
Nature, International weekly Journal of Science (2002). Your destiny, from day one. Nature, Vol. 418. Disponível em: http://www.nature.com/nature/archive/?year=195-1984-1955-2002-1950. Acesso: 15 de Fevereiro, 2016.
Moore, Keith; Persaud, T. V. N. (2008). Embriologia Clínica. Rio de Janeiro: Elsevier.
WOLPERT, Lewis; JESSELL, Thomas; LAWRENCE, Peter; MEYEROWITZ, Elliot; ROBERTSON, Elizabeth; SMITH, Jim. PRINCÍPIOS DE BIOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO. 3 ed.  Porto Alegre RS: ARTMED EDITORA S.A. 2008.
‘O desenvolvimento do embrião começa no estágio 1 quando o espermatozóide fertiliza óvulo e juntos se tornam um zigoto’ (Marjorie England, professor da Faculdade de Medicina de Ciências Clínicas, Universidade de Leicester, Reino Unido). [1]
‘O desenvolvimento humano começa depois da união dos gametas masculino e feminino durante um processo conhecido como fertilização (concepção). Fertilização é uma sequência de eventos que começa com o contato de um espermatozóide com um óvulo em sequência e termina com a fusão de seus núcleos e a união de seus cromossomos formando uma nova célula. Este óvulo fertilizado, conhecido como zigoto, é uma larga célula diplóide que é o começo, o primórdio de um ser humano’ (Keith L. Moore, premiado professor emérito e cátedro da divisão de anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto, Canadá). [2]
‘Embrião: um organismo no estágio inicial de desenvolvimento; em um homem, a partir da concepção até o fim do segundo mês no útero’ (Ida G. Dox, autora sênior de inúmeros livros de refência para médicos e cientistas, premiada, trabalhou na Escola de Medicina da Universidade de GeorgeTown). [3]
‘Para o homem o termo embrião é usualmente restrigido ao período de desenvolvimento desde a fertilização até o fim da oitava semana da gravidez’ (William J. Larsen, PhD, Professor do Departmento de Biologia Celular, Neurologia e Anatomia, membro do Programa de Graduação em Desenvolvimento Biológico do Colégio de Medicina da Universidade de Cincinnati) [4].
‘O desenvolvimento de um ser humano começa com a fertilização, processo pelo qual duas células altamente especializadas, o espermatozóide do homem e o óvulo da mulher, se unem para dar existência a um novo organismo, o zigoto’ (Dr. Jan Langman, MD. Ph.D., professor de anatomia da Universidade da Virgínia) [5].
‘Embrião: o desenvolvimento individual entre a união das células germinativas e a conclusão dos órgãos que caracteriza seu corpo quando se torna um organismo separado…No momento em que a célula do espermatozóide do macho humano encontra o óvulo da fêmea e a união resulta num óvulo fertilizado (zigoto), uma nova vida começa…O termo embrião engloba inúmeros estágios do desenvolvimento inicial da concepção até o nona ou décima semana de vida’ (Van Nostrand’s Scientific Encyclopedia) [6].
‘O desenvolvimento de um ser humano começa com a fertilização, processo pelo qual o espermatozóide do homem e o óvulo da mulher se unem para dar existência a um novo organismo, o zigoto’ (Thomas W. Sadler, Ph.D., Departamento de Biologia Celular e Anatomia da Universidade da Carolina do Norte) [7].
‘A questão veio sobre o que é um embrião, quando o embrião existe, quando ele ocorre. Eu penso, como você sabe, que no desenvolvimento, vida é um continuum…Mas penso que uma das definições usuais que nos surgiu, especialmente da Alemanha, tem sido o estágio pelo qual esses dois núcleos (do espermatozóide e do óvulo) se unem e as membranas entre eles se chocam’ (Jonathan Van Blerkon, Ph.D., pioneiro dos procedimentos de fertilzação em vitro, professor de desenvolvimento molecular, celular da Universidade de Colorado, reconhecido mundialmente como o preeminente expert na fisiologia do óvulo e do espermatozóide) [8].
‘Zigoto. Essa célula, formada pela união de um óvulo e um espermatozóide, representa o início de um ser humano. A expressão comum ‘óvulo fertilizado’ refere-se ao zigoto’ (Keith L. Moore, premiado professor emérito e cátedro da divisão de anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Toronto, Canadá; Dr. T.V.N. Persaud é professor de Anatomia e Chefe do Departamento de Anatomia, professor de Pediatria e Saúde Infantil, Universidade de Manitoba, Winnipeg, Manitoba, Canadá. Em 1991, recebeu o prêmio mais importante no campo da Anatomia, do Canadá, o J.C.B. Grant Award, da Associação Canadense de Anatomistas) [9].
‘Embora a vida seja um processo contínuo, a fertilização é um terreno crítico porque, sob várias circunstâncias ordinárias, um novo, genéticamente distinto organismo humano é por isso mesmo formado…A combinação dos 23 cromossomos presente em cada pró-núcleo resulta nos 46 cromossomos do zigoto. Dessa forma o número do diplóide é restaurado e o gênoma embrionário é formado. O embrião agora existe como uma unidade genética’ (Dr. Ronan O’Rahilly, professor emérito de Anatomia e Neurologia Humana na Universidade da Califórnia) [10].
‘Quase todos animais maiores iniciam suas vidas de uma única célula: o óvulo fertilizado (zigoto)…O momento da fertilização representa o ponto inicial na história de uma vida, ou ontogênia, de um indíviduo’ (Bruce M. Carlson, M.D, Ph.D., pesquisador professor emérito da Escola Médica de Desenvolvimento Biológico e Celular). [11]
‘Deixe-me contar um segredo. O termo pré-embrião tem sido defendido enérgicamente por promotores da Fertilização In Vitro por razões que são políticas, não científicas. O novo termo é usado para prover a ilusão de que há algo profundamente diferente entre o que não-médicos biólogos ainda chamam de embrião de seis dias de idade e entre o que todo mundo chama de embrião de dezesseis dias de idade. O termo pré-embrião é usado em arenas políticas – aonde decisões são feitas para permitir o embrião mais novo (agora chamado de pré-embrião) de ser pesquisado – bem como em confinados escritórios médicos, aonde pode ser usado para aliviar preocupações morais que podem ser expostos por pacientes de fertilização in vitro. ‘Não se preocupe’, um médico pode dizer, ‘é apenas um pré-embrião que estamos congelando ou manipulando. Eles não se tornaram embriões humanos reais até que coloquemo-os de volta ao seu corpo’ (Lee M. Silver, professor da célebre Universidade de Princeton no Departamento de Biologia Molecular e da Woodrow Wilson School of Public and International Affairs). [12]
[1] [England, Marjorie A. Life Before Birth. 2nd ed. England: Mosby-Wolfe, 1996, p.31]
[2] [Moore, Keith L. Essentials of Human Embryology. Toronto: B.C. Decker Inc, 1988, p.2]
[3] [Dox, Ida G. et al. The Harper Collins Illustrated Medical Dictionary. New York: Harper Perennial, 1993, p. 146]
[4] [Walters, William and Singer, Peter (eds.). Test-Tube Babies. Melbourne: Oxford University Press, 1982, p. 160]
[5] [Langman, Jan. Medical Embryology. 3rd edition. Baltimore: Williams and Wilkins, 1975, p. 3]
[6] [Considine, Douglas (ed.). Van Nostrand’s Scientific Encyclopedia. 5th edition. New York: Van Nostrand Reinhold Company, 1976, p. 943]
[7] [Sadler, T.W. Langman’s Medical Embryology. 7th edition. Baltimore: Williams & Wilkins 1995, p. 3]
[8] [Jonathan Van Blerkom of University of Colorado, expert witness on human embryology before the NIH Human Embryo Research Panel — Panel Transcript, February 2, 1994, p. 63]
[9] [Moore, Keith L. and Persaud, T.V.N. Before We Are Born: Essentials of Embryology and Birth Defects. 4th edition. Philadelphia: W.B. Saunders Company, 1993, p. 1]
[10] [O’Rahilly, Ronan and Müller, Fabiola. Human Embryology & Teratology. 2nd edition. New York: Wiley-Liss, 1996, pp. 8, 29. This textbook lists “pre-embryo” among “discarded and replaced terms” in modern embryology, describing it as “ill-defined and inaccurate” (p. 12}]
[11] [Carlson, Bruce M. Patten’s Foundations of Embryology. 6th edition. New York: McGraw-Hill, 1996, p. 3]
[12] [Silver, Lee M. Remaking Eden: Cloning and Beyond in a Brave New World. New York: Avon Books, 1997, p. 39]

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