Contribua com o SOS Ação Mulher e Família: Banco Santander 033 / Agência 0632 / Conta Corrente 13000863 – 4 / CNPJ 54.153.846/0001-90

Pessoas físicas e jurídicas podem destinar IR para o SOS Ação Mulher e Família através do Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente: http://fmdca.campinas.sp.gov.br/

sexta-feira, 24 de março de 2017

‘La Vingança’ satiriza eterna adolescência masculina

DIEGO OLIVARES ·MARÇO 14, 2017

Homens de quase quarenta anos que ainda preferem viver em uma espécie de Terra do Nunca, com dificuldades para lidar com questões sentimentais de forma madura e presos numa eterna rotina adolescente. A descrição cabe em quase toda uma geração, mas em La Vingança ela é personificada nas figuras de Caco (Felipe Rocha) e Vadão (Daniel Furlan), personagens centrais do road movie que usa a rivalidade entre Brasil e Argentina como pano de fundo para ilustrar este desnorteamento masculino em pleno século XXI.
Os dois amigos perambulam de São Paulo até Buenos Aires num carro velho, o simpático Jorge, depois que Caco flagra a namorada Julia (Leandro Leal) com o amante, um famoso chef de cozinha argentino. A intenção é conhecer e levar para a cama o maior número possível de garotas portenhas pelo caminho. Mas a missão se torna cada vez mais difícil, graças ao comportamento patético dos protagonistas.
A escolha por fazer graça com estes homens que ainda acham que são dádivas divinas para o mundo e, mais especificamente, para as mulheres, foi uma decisão consciente dos diretores Fernando Fraiha e Jiddu Pinheiro, também roteiristas do filme.
No vídeo abaixo, Fraiha, Pinheiro e o elenco de La Vingança falam ao TelaTela sobre esta opção, além da necessidade de reinventar fórmulas para evitar cair num tipo de humor que “já perdeu a graça”. Assista:

Carta Capital

“Nosso objetivo é romper as barreiras e o preconceito”, diz diretor de ‘Waiting For B.’

DIEGO OLIVARES ·MARÇO 2, 2017

Qualquer pessoa que acompanha minimamente a cultura pop conhece o fenômeno que se repete a cada grande show de uma estrela internacional no Brasil. Meses antes do evento, aparecem os primeiros fãs dispostas a acampar na fila até o dia da apresentação, faça chuva ou faça sol. Tudo para garantir um lugar mais perto de seu ídolo.
“Loucos” e “desocupados” são alguns dos adjetivos mais comuns empregados pela maioria das pessoas na hora de descrever estes cidadãos abnegados. O documentário Waiting For B., dirigido por Paulo César Toledo e Abigail Spindel, tem o mérito de ir além destes estereótipos. Ao fazer isto, acaba revelando um pouco da alma destes jovens, em sua maioria negros, homossexuais e da periferia de São Paulo, que passaram longas semanas às portas do Morumbi na expectativa pelo show de Beyoncé no estádio, que aconteceu em setembro de 2013.
Num país em que muita gente ainda carece de se ver representada na grande mídia, figuras como Beyoncé, ou pelo menos a imagem de empoderamento projetada por sua persona pública, são fundamentais e acabam cumprindo o papel próximo a uma “madrinha” de seus admiradores.
Tal retrato tem reverberado forte com o público. Imaginado inicialmente como uma produção a ser disponibilizada diretamente no YouTube, o filme foi premiado em Festivais como o Mix Brasil, o In-Edit e o Queer Lisboa, além de ter sido exibido na América Latina, Estados Unidos, Rússia, Suécia, Tanzânia e Austrália, entre outros..
Na semana em que Waiting For B. chega ao circuito comercial brasileiro, como parte da iniciativa Sessão Vitrine Petrobrás, Paulo César Toledo conversou com o TelaTela:
TelaTela – Como surgiu a ideia do documentário? Você é particularmente fã da Beyoncé ou já fez coisas parecidas para ver algum show?
Paulo César Toledo – O documentário surgiu da minha curiosidade pessoal sobre esse fenômeno dos acampamentos para os grandes shows, principalmente porque eu sempre achei que, apesar da cobertura dada pelos meios de comunicação, ela era sempre rápida e superficial. Eu pressentia que havia ali um tesouro, mas que ele demandaria tempo e paciência para que ele viesse à tona. Eu sempre fui um grande fã de música, inclusive foi por causa da música que fui estudar Rádio e Televisão e acabei chegando ao Cinema. A Abigail gostava mais da música da Beyoncé do que eu quando começamos o filme (confesso que eu mal a conhecia), mas nenhum de nós nunca considerou fazer uma loucura tão grande por nenhum artista.
Há uma preocupação visível do documentário em apresentar os personagens de forma leve e divertida e ao mesmo tempo não reduzi-los a caricaturas. Como foi encontrar estes limites?
Realmente acho que seria muito fácil fazer um filme ridicularizando esses fãs, pois eles estão muito expostos e já partem de uma situação em que a maior parte das pessoas os vê com preconceito. Por isso buscamos produzir um documentário de observação, pois o ponto de vista do público fica muito mais próximo do próprio ponto de vista dos personagens, e cria-se assim, uma empatia maior. Para nós, que não os conhecíamos antes das filmagens, foi essencial a generosidade e a receptividade do acampamento e todo o tempo nosso objetivo é romper as barreiras e o preconceito, ao invés de reforçá-las, então procuramos fazer um retrato sem julgamentos.
À primeira vista, para quem lê a sinopse, o filme parece apenas ter um recorte curioso. Diante das personagens, acaba sendo um estudo sobre a influência de uma artista em pessoas que normalmente não se sentem representadas em outras áreas da sociedade. O documentário sempre foi concebido com essa premissa ou o contato com os personagens acabou por revelar isso posteriormente?
O filme começou como uma investigação sobre esse grupo específico de fãs. Como o tempo nós fomos descobrindo todas essas camadas de assuntos que foram se revelando para nós e quem aliás, acabaram sendo muito mais relevantes! Assim, o fanatismo, de ponto de partida passou a ser a catalisadora dessa série de questões que acabou indo de empoderamento, homofobia, classe e até mesmo o sentimento de coletividade, dentro dessa comunidade de aceitação.
O Brasil é um país onde a idolatria aos astros da cultura pop é muito grande. Quais fatores podem explicar isso?
Olha, apesar de termos feito esse filme eu ainda não tenho uma resposta definitiva pra isso. Mas posso falar do meu ponto de vista: apesar de ser um país tão grande e rico, a desigualdade social acaba com a auto-estima dos jovens, principalmente os das classes mais baixas. A minha impressão é que estamos sempre ‘batendo na trave’ em termos de inserção no cenário internacional, mas graças à internet nós nos sentimos tão próximos a tudo que acontece no mundo, mas nunca podemos alcançar. Então, na prática, cada show, cada aparição de um ídolo internacional por aqui pode ser a última. Além disso, se não temos esperança de alcançarmos o sucesso de uma Beyoncé ou de uma Lady Gaga, ao fazermos parte dessa coletividade da “fanbase” é possível, pelo menos virtualmente, compartilhar um pouco dessas glórias.
Este é seu primeiro longa-metragem e já vi declarações suas de que a expectativa inicial era apenas de lançá-lo na internet mesmo. Agora, ele chega ao circuito comercial de cinema, depois de passagens importantes por festivais. Como toda esta trajetória de Waiting For B. impacta sua carreira daqui para frente?
A carreira do Audiovisual no Brasil é muito dependente do apoio público, através de leis de incentivo, editais e concursos. Até hoje nós nunca havíamos conseguido nenhum patrocínio para nenhum projeto, por isso fizemos esse filme sem grana nenhuma. Quando começamos esse projeto nossa intenção era exatamente enriquecer nosso currículo para, quem sabe, conseguirmos algum apoio desse tipo no futuro. Espero que Waiting for B. facilite esse acesso agora..
O filme dá voz a jovens negros, gays, pessoas da periferia. Qual é a importância de fazer isso em um momento como este no Brasil, onde as minorias que vinham ganhando força se vêem ameaçadas por uma nova onda de repressão?
Acho que tão importante quanto o filme em si e seus personagens, o maior valor desse filme é mostrar que é possível produzir por conta própria. Esse filme é, quase que literalmente, um filme de fundo-de-quintal, e esse é o recado: se você acredita na sua ideia, parta pra cima e produza. Se o filme não chegar na sala de cinema não desanime, afinal o que não faltam hoje são maneiras de colocar o seu filme no mundo. O que queremos, no final, é compartilhar a nossa visão e tentar mostrar um pedacinho do mundo que algumas pessoas ainda não conhecem, então a internet está aí pra isso.




Carta Capital

Bolívia discute aborto em 9 casos, inclusive por pobreza extrema

por Tory Oliveira — publicado 23/03/2017

Proposta inclui estudantes e mulheres em situação de rua. Atualmente, o aborto só é permitido em caso de estupro, incesto ou risco para a mãe
Na Bolívia, o parlamento começará a discutir uma proposta de ampliar a descriminalização do aborto para nove casos, além dos três já previstos pela legislação atual: risco para a gestante, estupro ou incesto.
De acordo com a proposta apresentada por alas mais progressistas do partido governista Movimento para o Socialismo (MAS), a interrupção da gravidez também seria permitida para gestações de até 8 semanas, nos casos em que a mulher viva em situação de rua ou na extrema pobreza, não tenha recursos suficientes para o sustento de sua própria família, seja estudante ou já tenha tido pelo menos três filhos.
Em outros casos previstos pela nova proposta (má-formação fetal grave, gravidez na infância/adolescência, estupro, incesto ou risco para a saúde da gestante), não há o limite da etapa da gestação para interrompê-la.
No entanto, caso a mulher pratique o aborto em circunstâncias não contempladas pela nova legislação, a pena prevista é de um a três anos de prisão.
Segundo informações do jornal El Pais, nos casos contemplados pela nova proposta só seria necessário preencher um formulário de consentimento para realizar o procedimento e os médicos deverão manter a identidade da gestante em sigilo. Os profissionais da saúde também não poderão se negar a realizar o aborto nesses casos, o que gerou críticas entre associações de médicos bolivianos. 
A proposta é apoiada por grupos que defendem os direitos da mulher, mas não conta como o apoio unânime dentro da base governista de Evo Morales, além de enfrentar oposição de setores religiosos no país e de organizações profissionais de médicos. 
De acordo com o governo, a medida visa diminuir a mortalidade de mulheres na Bolívia. Ministra da Saúde do governo de Evo Morales, Ariana Campero justificou a iniciativa afirmando que 13% das mortes maternas são resultantes de abortos clandestinos, que vitimam principalmente as mulheres mais pobres.

"A Garota desconhecida": corpos e diagnósticos de uma sociedade doente

por Matheus Pichonelli — publicado 23/02/2017

A médica do filme luta contra o apagamento da identidade da garota que não pôde socorrer. As pistas são conectadas a partir dos sintomas dos pacientes
A ética médica foi tema de debates alvoroçados desde que uma profissional do Hospital Sírio-Libanês divulgou informações sobre o estado de saúde da ex-primeira-dama Marisa Letícia a um grupo privado de mensagens instantâneas. Naquele grupo, as informações detonaram uma série de mensagens de ódio contra a paciente.
Os perigos do acirramento político se sobrepor à relação médico-paciente, que envolve sigilo, mas sobretudo cuidado, tornaram evidentes o sintoma de uma sociedade doente. Os médicos, neste caso, eram parte do sintoma, não da cura, situação que saiu do controle quando se tornaram vítimas de um linchamento virtual.
No filme “A Garota Desconhecida”, que estreou nesta semana nas salas do país, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne colocam a ética profissional, pelo olhar de uma médica, em outra perspectiva: a do dever. Através dele, o confinamento do consultório expande-se como uma forma de estar no mundo – um mundo que bate às portas para pedir ajuda.
É o que acontece quando Jenny (Adele Haenel), a médica da história, ouve, a campainha após encerrar o expediente no consultório. Do lado de dentro, o chamado é abafado por uma lição: ela está ocupada ensinando o estagiário que um bom profissional precisa estabelecer limites, determinar horários e evitar se envolver com pacientes. Horas antes, o novato vê um garoto sofrer uma concussão e fica paralisado.
A fala é o exato oposto da conduta de Jenny ao longo do filme. Ela se envolve, leva o trabalho para a casa dos pacientes e a própria casa para dentro do consultório. Nesta rotina, descobre que, ao não atender a campainha, negou ajuda, sem que soubesse, à garota desconhecida, morta pouco depois, ao fugir de seu agressor. Passa a agir como quem sente ter rasgado o juramento de Hipócrates
Ligada àquela história, Jenny passa o resto do filme lutando contra o apagamento da memória e da identidade da garota que não pôde socorrer. As pistas até a vítima são conectadas a partir dos sintomas dos moradores onde ocorreu o crime, parte deles seus pacientes.
Num conflito entre o sigilo médico e a investigação por conta própria, que esbarra na atuação policial, ela leva uma foto da vítima para todos os pacientes em busca de alguém que a conheça. Em uma dessas visitas, percebe a alteração da pupila em um jovem com problemas de estômago, possivelmente resultado de um trauma recente. Ali a médica não constrói um diagnóstico apenas do paciente, mas de uma sociedade e seus sintomas.
Esses sintomas, físicos e emocionais, nem sempre são falados, e estão diretamente relacionados a conflitos culturais e sociais. É a deixa para os diretores entrarem de sola em questões como a imigração, a exclusão, a exclusão, os crimes de ódio de uma sociedade que cria cidadãos de primeira, segunda e terceira categorias.
Os elementos que perpassam a busca da protagonista mostram que podemos tentar delimitar os conflitos da porta de casa para fora, mas é inútil: este mundo irrompe à porta de casa.
“Os personagens têm muitas reações psicossomáticas, que incluem tonturas, dores de estômago, surtos epilépticos... O corpo sempre responde antes; ele fala e expressa coisas que por vezes não se põe em palavras. Jenny se importa com o sofrimento dos pacientes e tenta curá-los enquanto investiga quem era a garota desconhecida”, afirma Luc Dardenne.
Em vez do policial, a dupla escolheu a médica para a missão porque não queria propor um cinema de gênero. “Desenvolvemos uma investigação dupla. Jenny tenta obcecadamente descobrir o nome da garota que foi encontrada morta e sobre quem ninguém sabe nada. Ela também quer entender a razão dessa morte, pela qual se sente parcialmente responsável”, diz Jean-Pierre.
A médica dos irmãos Dardenne é a sensibilidade que assume esse chamado como um dever. Em tempos de tanta desconfiança sobre quem deveria oferecer cuidado e acolhimento à diversidade, o filme tem em sua protagonista uma declaração de amor e dedicação à profissão.

“Insubstituível”: o conflito entre finitude e continuação em um mundo envelhecido

por Matheus Pichonelli — publicado 22/03/2017

No filme de Thomas Lilti, médicos definem o ofício como a luta eterna contra a "barbárie da natureza, mesmo sabendo que ela ganhará no fim”
“Esse trabalho é muito angustiante. Sinto que há 20 anos trabalho sofrendo, com dificuldade, preocupado. Nós consertamos. Na medicina, consertamos. Consertamos as besteiras da natureza. A natureza pode ser outra coisa para os religiosos, mas não me digam que a natureza é algo belo. Na natureza há coisas belas, e também horríveis. A natureza é uma barbárie. Lutamos eternamente contra uma barbárie. Mesmo sabendo que ela ganhará no fim”.
O desabafo é de Jean-Pierre, personagem de François Cluzet no filme “Insubstituível”, que estreou há algumas semanas – e sem muito alarde – nos cinemas por aqui.
Dirigido por Thomas Lilti, cineasta e médico ainda atuante, o drama foi visto por mais de 2 milhões de pessoas na França.


O relato-desabafo do personagem médico dirigido por um médico cineasta, que já havia entrado na temática em seu trabalho anterior, Hipócrates (é diretor também de Anos Incríveis), ajuda a explicar a comoção com o filme em seu país de origem, onde, segundo as projeções, metade da população terá mais de 50 anos até 2025, mas tem mais a ser apreendido na rotina aparentemente corriqueira no interior, onde atua como uma espécie de médico da família.
A começar pelas questões da longevidade e da finitude colocadas em primeiro plano em um cenário aparentemente imutável, mas já transformado por uma nova realidade social e cultural em curso – no baile daquela comunidade no interior, longe dos cartões-postais parisienses, a música que toca é folk americano, e a estética é mais próxima de cowboys texanos do que com a Nouvelle Vague. É a França contemporânea de Macron e Le Pen.
Jean-Pierre é um médico diagnosticado com uma doença terminal que recebe a ingrata missão de cuidar da transição do próprio ofício e legado. Passa a ser acompanhado por uma médica recém-formada (Marianne Denicourt) que deverá substituí-lo em breve. Os conflitos são sutis e corriqueiros.
Parte dos pacientes não aceita ser tratada por uma mulher, e ela precisa o tempo todo demonstrar a capacidade para lidar com as situações-limite, que, ali, são também geográficas. Para chegar à casa dos pacientes, é preciso cruzar estradas de terra, enfrentar animais, a chuva, problemas de comunicação.
Naquele cenário de expectativas de vida alongadas e não exatamente amigáveis nem com quem cuida nem com quem é cuidado, médicos e pacientes envelhecem na mesma limitação. Eles se compreendem e se identificam na finitude e na dificuldade em conter a barbárie dessa natureza que, como diz seu protagonista, será sempre vitoriosa.
Morte e finitude têm sido temas de alguns dos mais importantes trabalhos recentes no cinema contemporâneo (“Amor”, de Haneke, “45”, de Andrew Haigh, e “Longe Dela”, de Sarah Polley, são alguns exemplos). Aqui o foco não é só o paciente, mas também quem diagnostica, o que envolve um estado de alerta e uma ética médica nem sempre lembrados quando o que está em jogo é viver ou não.
Recentemente os irmãos Dardenne levaram às telas este conflito com “A Garota Desconhecida”, saudado pelo psicanalista Contardo Caligaris como o melhor filme já visto por ele sobre o que é ser médico.
“Insubstituível”, que também aborda os diagnósticos de efemeridades do corpo e também da comunidade onde se comunicam, chega aos cinemas mais ou menos na mesma época. Vistos em sequência, os dramas servem como reflexão sobre algumas das mais agudas angústias do mundo atual: as relacionadas ao contato só aparentemente harmônico entre envelhecimento e continuidade.

T2 Trainspotting: quando o lema "Escolha a Vida" escapa à ironia

por Miguel Martins — publicado 23/03/2017

Na sequência do filme de 1996, Renton e seus velhos companheiros põem a limpo suas relações, que vão além de agulhas compartilhadas
Em um momento, você tem tudo ("you've got it"), depois perde para sempre. O craque norte-irlandês George Best tinha, perdeu. Os ídolos do rock David BowieLou Reed, Malcolm McLaren e Elvis Presley também. Há 20 anos, o personagem de Trainspotting Sick Boy tentava convencer o amigo Mark Renton, vivido por Ewan McGregor, de sua “teoria unificadora da vida”: quando ficamos velhos, não damos mais conta e ponto final.  
Na sequência T2 Trainspotting, que estreia nesta quinta-feira 23 no Brasil, Sick Boy, novamente interpretado por Jonny Lee Miller, é obrigado a pôr a teoria à prova na pele de um envelhecido Simon. Seus planos de se firmar como um traficante e cafetão seguem no horizonte. Com sua parceira de negócios, Veronika (Anjela Nedyalkova), sonha em erguer um controverso empreendimento em Leith, região portuária de Edimburgo.
Simon pouco se arrisca com as agulhas. Tampouco Renton, com quem se reencontra 20 anos depois de o amigo o trapacear em um operação amadora de tráfico. Ao menos em relação ao abuso de drogas, a dupla parece confirmar a velha teoria: ambos velhos, não parecem dar mais conta. 
Na sequência do filme original, um picante retrato dos usuários de substâncias injetáveis também dirigido por Danny Boyle, a heroína, antes tratada como uma dama de “grande personalidade”, surge como coadjuvante. Um reflexo do amadurecimento dos personagens e dos temas nesta sequência, mas também da perda relativa de espaço do opiáceo no universo das drogas ilícitas.
Quando o primeiro Trainspotting foi lançado, em 1996, o consumo de heroína era um notório problema de saúde pública na Europa e nos Estados Unidos. No Reino Unido, eram mais de 350 mil usuários, segundo estimativas da organização britânica DrugScope. Hoje, são 260 mil, grande parte concentrada entre aqueles com 35 a 64 anos.
Ao retratar jovens que compartilhavam agulhas sem o moralismo das campanhas contra entorpecentes, o filme original foi tema até das eleições norte-americanas de 1996, quando o senador Bob Dole, candidato do partido Republicano contra Bill Clinton, atacou o longa por “depravação moral” e “glorificação do uso de drogas”.
No fim dos anos 1990, a heroína não se restringia a círculos marginais, como o grupo de amigos escoceses retratados no primeiro Trainspotting, jovens aferrados ao seguro-desemprego e a programas de redução de danos para dedicarem-se à “injeção intravenosa de drogas pesadas”.
Mesmo entre as bandas que marcavam presença na trilha sonora do filme, havia diversos usuários regulares ou eventuais do opiáceo, como Donna Matthews e Justine Frischmann, guitarrista e vocalista do Elastica, e Damon Albarn, líder do Blur.
No filme de 1996, a realidade de usuários de heroína descortinava relações também viciadas: famílias que não conversam, amigos incapazes de confraternização superior à partilha de uma agulha ou de lucros do tráfico, a escolha sem saída entre o consumo ou o autoconsumo.
Sick Boy
Em T2, a teoria de Sick Boy é posta à prova: ficamos velhos, não damos mais conta (Foto: Divulgação)
Tema de uma campanha antidrogas de 1980, “Choose Life” ("Escolha a vida"), o gancho do famoso discurso de abertura do primeiro Trainspotting, não parecia oferecer muito mais que carros, máquinas de lavar, tocadores de CD e abridores elétricos de lata — eram os anos 1990, afinal. Em vez do consumismo vazio, Renton defende sua opção pela heroína para se libertar de “contas, comida, um time de futebol que nunca ganha porra alguma e relações humanas”.
No discurso “Choose Life” de T2, as referências de consumo são atualizadas para Facebook, Twitter, Instagram e outras referências da cultura digital, mas distanciar-se da heroína não significa apenas integrar um mercado consumidor. O lema escapa à ironia: nesse filme, o protagonista "escolhe a vida" ao encarar os erros do passado. 
A busca tardia de Renton de reabilitar relações humanas feridas amplia o escopo de dilemas do primeiro filme, reduzidos a uma escolha entre vícios lícitos ou ilícitos. Para além de agulhas compartilhadas, os amigos querem pôr suas relações a limpo.
Em Trainspotting 2, Renton assume a posição de “turista de sua própria juventude”, uma condição que se estende para os fãs do primeiro filme. Flashes de cenas do longa de 1996 combinam-se com imagens do protagonista e seus amigos durante a infância.
Há diversos personagens revisitados nessa sequência, como Diana (Kelly Macdonald) e o traficante Mikey Forester, interpretado por Irvine Welsh, autor do livro Trainspotting e de Porn, sequência que serviu de base ao novo filme.
Os personagens despem-se de estereótipos. Ao conhecermos suas relações familiares, Francis Begbie (Robert Carlyle) torna-se mais humano, mas não menos intimidante. Ewen Bremner empresta uma persistente ingenuidade a Spud, aprofundado nessa sequência para além de cenas de humor e escatologia, embora elas ainda estejam presentes. 
Tema de abertura do primeiro filme, o clássico “Lust for Life” surgia como uma sugestiva ironia: enquanto Iggy Pop cantava que estava “cansado de dormir na calçada destruindo seu cérebro com bebidas e drogas”, Renton e Spud corriam da polícia após roubarem uma loja para financiarem seu vício em heroína. Neste filme, Renton veste a carapuça dos versos da música, repaginada por um remix do grupo eletrônico Prodigy.
“Você é um viciado, então seja viciado em outra coisa”, resume o velho "Rent Boy". 

O namorado imaginário

Cultivamos fantasias autocomplacentes no mundo do trabalho, nas relações sociais e nos afetos. Depois nos enfurecemos – ou desabamos – quando os fatos nos contrariam

IVAN MARTINS
22/03/2017

Eu nunca experimentei, mas dizem que namoros à distância são complicados. Falta convívio, sobram inquietações, algumas experiências importantes são atrofiadas. Mesmo em tempos de Skype e WhatsApp, a intimidade de quem se relaciona à distância é incompleta. Um corpo apaixonado requer o toque do outro corpo. Na ausência desse contato, as relações são limitadas. Por isso os namoros à distância tendem a ser temporários. Ou as pessoas se mudam para o mesmo lugar ou o romance acaba.

Pensei nisso na semana passada, quando uma moça me contou que seu namoro acabara repentinamente, durante uma conversa por Skype. O rapaz está morando na Europa e anunciou que ficará por lá, indefinidamente. Ela estava devastada. Imaginava que ele voltaria nos próximos meses ou que a convidaria para encontrá-lo. Ele, obviamente, tinha outros planos e sentimentos.

Minha primeira reação a essa história foi maldizer o abismo social que separa os dois continentes e torna a vida na Europa tão atraente para boa parte dos brasileiros. Mas, depois de ouvir com atenção, essa impressão se desfez. Ficou claro que o problema não estava na distância civilizatória entre o Brasil e a Europa, mas na distância entre o que a moça imaginara e a realidade. Ela havia inventado um namorado para si mesma. O que o sujeito fez no Skype foi comunicar a ela que a ilusão estava oficialmente encerrada.

Alguma leitora dirá que é impossível inventar um namorado, e estará errada. Homens e mulheres têm capacidade de acreditar em qualquer coisa que lhes dê conforto ou alivie sofrimentos. As relações imaginárias são uma delas. Quando falta um relacionamento real, as pessoas podem se enrabichar com o cobrador de ônibus, com a gerente do banco ou até mesmo com aquela prima – ou primo – que aparece de visita uma vez por ano. Basta a pessoa dar atenção ao carente para que ele se imagine numa relação.

O que aconteceu com a protagonista desta história foi diferente. Ela passou algumas semanas com um homem que estava de partida e imaginou que o combustível emocional seria suficiente para aquecer dois corações à distância. Estava errada. Assim que chegou ao outro lado do Atlântico, o rapaz começou a mudar de atitude. De apaixonado foi passando a distraído, e logo a impaciente. As trocas de WhatsApp escassearam, e as conversas semanais por Skype se tornaram burocráticas. Ela pedia atenção e sentimento. Ele oferecia pressa e indisfarçável frialdade. No aniversário de um ano da viagem, encerrou a farsa. O que para ele fora apoio emocional num momento de transição se transformara para ela em esperança de vida comum. Não poderia haver sentimentos mais desencontrados.

Se o relacionamento entre eles era imaginário, a dor que ela sente é real. Está arrasada e ressentida. Acredita que perdeu um ano de vida se dedicando a um egoísta. É um julgamento duro, provavelmente correto, que ajuda a superar seu sofrimento. Mas ele contém um elemento de ilusão. Culpar a fraqueza e a ambiguidade do outro a isenta de pensar em sua própria responsabilidade no episódio. A base da relação era frágil, e o rapaz deu vários sinais de que desejava rompê-la, mas ela persistiu no namoro à distância, acreditando e insistindo, até que ele tornou a fantasia impossível. Ela tem direito de se sentir enganada, mas talvez devesse admitir que foi cúmplice da encenação.

Descontadas as particularidades – a Europa, o Skype, o tempo  –, essa história guarda lições para nós todos. Somos especialistas em enxergar aquilo em que queremos acreditar e mestres em ignorar evidências que nos contrariem. Cavalgamos ilusões com mais facilidade do que lidamos com a realidade. Cultivamos fantasias autocomplacentes no mundo do trabalho, nas relações sociais e nos afetos. Depois nos enfurecemos – ou desabamos – quando os fatos nos contrariam. Se os nossos problemas se resumissem aos que agem mal conosco, teríamos pouco com que nos preocupar. O que mais atrapalha a nossa vida são os nossos enganos.

Não interessa saber se o namoro é à distância, mas se ele é real. Se a pessoa do outro lado da linha telefônica – ou do outro lado da sala – faz com que você se sinta amada ou amado, tudo bem. Esse é o antídoto contra o autoengano. As relações que satisfazem emocionalmente costumam ser verdadeiras. Problemas e complicações são inevitáveis, mas, quando se olha nos olhos do outro – mesmo desapontado, mesmo depois de uma briga, mesmo na tela do computador – é preciso encontrar cumplicidade e reconhecimento, não indiferença ou desatenção.

O relacionamento que a moça me relatou não resiste aos filtros de realidade. Um dia talvez tenha sido verdadeiro, mas havia tempos não passava de ilusão. Por pior que tenha agido antes, o rapaz foi correto ao encerrá-lo. A moça está gostando de sentir-se vítima, mas faria mais por si mesma se admitisse seu próprio papel na trama. Abandonar-se à autopiedade é uma forma conhecida de prazer, mas, assim como os namoros imaginários, não leva a lugar nenhum.

quinta-feira, 23 de março de 2017

OMS afirma que poluição mata 1,7 milhão de crianças a cada ano

570 mil crianças morrem de infecções respiratórias devido à poluição do ar interior e exterior e ao tabagismo passivo

Por: AFP em 06/03/17

Mais de um quarto das mortes de crianças com menos de cinco anos pode ser atribuído à poluição ambiental, indica a Organização Mundial da Saúde (OMS) em dois relatórios divulgados nesta segunda-feira. 

A cada ano, os riscos ambientais - poluição do ar, fumo passivo, água contaminada, falta de saneamento e higiene deficiente - causam a morte de 1,7 milhão de crianças menores de cinco anos anos no mundo, aponta a OMS em um comunicado.

Entre elas, 570.000 crianças morrem de infecções respiratórias (como, por exemplo, pneumonia), devido à poluição do ar interior e exterior e ao tabagismo passivo, e 361.000 outras morrem de doenças diarreicas, devido à falta de acesso a água potável e meios de higiene e saneamento básico.

"Um ambiente poluído é mortal, especialmente para crianças muito novas", lamenta a Dra. Margaret Chan, diretora-geral da OMS, citada no comunicado.

"As crianças muito novas são particularmente vulneráveis ​​à poluição do ar e da água, porque seus corpos e sistemas imunes ainda estão em processo de desenvolvimento e seu corpo, incluindo suas vias aéreas, são menores", acrescenta.

Segundo a OMS, muitas das doenças que são as principais causas de mortes de crianças com idade entre um mês a cinco anos - diarreia, malária e pneumonia - poderiam ser evitadas através de intervenções "simples e eficazes para reduzir os riscos ambientais, tais como o acesso à água potável e ao uso de combustíveis limpos para cozinhar".

A OMS explica que, por exemplo, as mortes por malária poderiam ser evitadas pela redução do número de criadouros de mosquitos ou cobrindo os reservatórios de água.

Novos perigos também ameaçam a saúde das crianças.

Assim, os novos riscos ambientais, como resíduos de equipamentos elétricos e eletrônicos - como telefones celulares usados - que não são descartados de forma apropriada ou reciclados, expõem as crianças a toxinas que podem levar à diminuição da capacidade cognitiva, déficit de atenção, danos nos pulmões ou câncer, de acordo com especialistas.

Segundo a OMS, a quantidade de resíduos eletrônicos e de equipamentos elétricos terá aumentado em 19% entre 2014 e 2018, atingindo 50 milhões de toneladas.

Por sua vez, as mudanças climáticas elevam as temperaturas e os níveis de dióxido de carbono, que promove a produção de pólen associado com o aumento das taxas de asma em crianças.

Em 2016, a OMS já havia indicado que quase um quarto das mortes em todo o mundo, entre todas as populações, resultava de causas relacionadas ao ambiente, indo da poluição aos acidentes rodoviários.

Autorizada extradição de português condenado por violência doméstica

A 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal autorizou nesta terça-feira (21/3) a extradição do cidadão português André Machado Costa, condenado em seu país a 1 ano e 3 meses de prisão pelo crime de violência doméstica. Costa está preso preventivamente para fins de extradição desde 1º de julho de 2016, na cidade de Criciúma (SC).
De acordo com os autos, André Costa manteve união com uma brasileira por dois anos na cidade portuguesa de São João da Madeira. Após a companheira abandonar a relação e a casa em que viviam, ele passou a persegui-la na rua e, em maio de 2013, cometeu uma série de agressões físicas e verbais contra ela.
Em sustentação oral, o representante da Defensoria Pública da União afirmou que o acordo entre os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa prevê que a pena subsistente que pode justificar a extradição deve ser de seis meses ou mais e, no caso, ultrapassa em pouco esse prazo. Com isso, defendeu o indeferimento do pedido do Estado português, ao alegar a inviabilidade de se consumar a extradição nos termos do tratado, pois o período seria insuficiente para publicação do acórdão, intimação das partes, aguardar o trânsito em julgado, comunicar o requerente e retirar o extraditando do país. “Invariavelmente, não é possível que essa extradição vá ocorrer nos prazos e nos termos do tratado.”
Relator do processo, o ministro Celso de Mello afirmou em seu voto que o caso atende integralmente os pressupostos que condicionam o deferimento do pedido de extradição, seja quanto à questão da dupla tipicidade, uma vez que o delito em questão (violência doméstica) encontra correspondência no artigo 129, parágrafo 9º, do Código Penal Brasileiro, seja quanto à dupla punibilidade, na medida em que não houve transcurso do prazo prescricional nas legislações brasileira e portuguesa.
O ministro explicou que a pena de 15 meses de prisão prescreve em quatro anos e que, considerada a data do trânsito em julgado da condenação (29 de julho de 2013), não houve o transcurso desse prazo. O relator observou ainda que, segundo a Convenção de Extradição entre os Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, só se concederá a extradição se o tempo remanescente de pena a ser cumprida for igual ou superior a seis meses. O saldo remanescente, no caso, é de 7 meses e 7 dias de prisão. “Mesmo após a detração do período de prisão cautelar a que está sendo submetido no Brasil, ainda assim a pena remanescente a ser cumprida no exterior resultará em sanção privativa de liberdade superior a seis meses de reclusão, atendendo, dessa forma, a condição objetiva prevista na convenção de extradição”, disse o relator.
O decano do STF afirmou que se impõe ao caso a detração penal exigida pelo Estatuto do Estrangeiro para que se deduza da pena imposta ao extraditando o período de prisão cautelar a que ficou submetido no Brasil. Incide no caso também, segundo o relator, a hipótese da Súmula 421 do Supremo, segundo a qual, em caso de extradição, é irrelevante a circunstância de ser o extraditando casado com brasileira ou ter filho brasileiro, já que vive em união estável e tem um filho.
Dessa forma, o ministro votou pelo deferimento do pedido, ressalvando-se apenas a necessidade de a República portuguesa assumir o formal compromisso em fazer a detração da pena referente ao período em que o extraditando esteve preso no Brasil. Os demais ministros da turma acompanharam o voto do relator. Com informações da Assessoria de Imprensa do STF.
Ext 1.451