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quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Azar no amor existe?

Algumas pessoas têm nelas algo que convida ao desastre amoroso, que atrai o desastre, que fabrica o desastre se for necessário. É falta de sorte

IVAN MARTINS
08/11/2017

Assim como eu, vocês certamente conhecem alguém que tem azar no amor. É gente que se apaixona por quem faz sofrer, que gosta de quem não sente nada por elas, que se liga a pessoas improváveis (malucos, egoístas, indisponíveis) capazes de destroçar o coração e a cabeça de qualquer um.

A parte mais triste dessa história é que não costumamos pensar nessas pessoas como azaradas. Nós as julgamos – severamente – por fazerem péssimas escolhas amorosas, uma atrás da outra. Nós as tratamos como se fossem inteiramente culpadas pela sua infelicidade.

Obviamente não é assim. Quando se trata de amor, as pessoas não fazem o que querem. Fazem o que podem.


Na semana passada, conversei com um cara – bonito, inteligente, cheio de personalidade – que está há mais de ano num enrosco insolúvel. Ele se apaixonou por uma mulher cujo maior prazer parece ser enlouquecê-lo. Ela mantém um caso com ele e com um cara mais velho, ao mesmo tempo, e faz questão de sugerir, a todo momento, que se ele fosse diferente (mais seguro, mais viril, mais experiente, mais sei lá o quê), ela deixaria o cara por ele. Mas nunca deixa, e ele, embora sofra como boi no abate, continua esperando por ela.

Em 20 minutos de conversa com o rapaz, ficou claro que essa enrascada é um padrão que se repete na história dele desde a adolescência: mulheres (que ele acha) lindas, distantes e complicadas, que não se comprometem emocionalmente. É como se ele gostasse de ficar no limbo.

Como se explica uma coisa dessas, se não pelo azar? Azar de ter a propensão terrível a se apaixonar pela ambiguidade dos outros. Azar de que o inconsciente dele, por conta própria, crie laços, repetidamente, com gente que o faz sofrer. Ou, pior ainda, azar de que ele, sem perceber, estimule nas mulheres comportamentos cruéis, ajudando a criar o monstro que irá atormentá-lo. Lembro de um amigo que me dizia, depois de anos fazendo análise: “Eu sempre achei que só arrumava mulheres loucas. Com o tempo, percebi que eu as deixava loucas, para poder me apaixonar”. Isto é azar: ter algo dentro de si que convida ao desastre amoroso, que atrai o desastre, que fabrica o desastre se for necessário.

O contrário disso é gente com sorte. Não a sorte grande da loteria, aquela de encontrar alguém para o resto da vida. Isso acontece, mas é cada vez mais raro no meio em que eu vivo. Penso numa sorte mais modesta, simplesinha, que ajuda a tropeçar em gente legal, que permite se apaixonar por pessoas amorosas e comprometidas, que leva ao encontro de vivências ricas, recíprocas, profundas, nas quais os sentimentos (e não as neuroses, e não as doenças) floresçam livremente, pelo tempo que lhes for dado existir. Tempo, aliás, que também é matéria dessa mesma sorte: por que para alguns o amor se gasta tão rápido, e em outros permanece? Sorte.

Já se vê que a palavra sorte, nesse caso, significa algo diferente do que os dados aleatórios do destino. Penso na sorte de chegar à idade adulta com uma configuração emocional que nos permita encontros amorosos felizes. Mas essa sorte, ao contrário da outra, incontrolável, pode ser melhorada. É possível, ao longo da vida, investir na compreensão de si mesmo e no combate às repetições. Acredito que é possível mexer nas configurações interiores para não sermos escravizados por elas. Para isso, eu recomendo e pratico a psicanálise. Outras pessoas usam métodos diferentes de autoconhecimento e transformação.

O essencial, eu acho, é entender que não somos culpados pelo que sentimos ou mesmo por quem sentimos. Isso é sorte. Nossa responsabilidade começa quando, ao perceber o problema, ao constatar a doença e a repetição, continuamos de braços cruzados, inertes. Aí já não se trata de sorte, mas de escolha.

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